quarta-feira, dezembro 01, 2010

Um homem verdadeiro

Por Cristiano Alves

O cinema, favorável à liberdade ou pró-imperialista, cria frequentemente diferentes tipos de herói, elegantes ou ridículos, favoráveis às causas justas ou vis, históricos ou fictícios. Porém, é cinematograficamente impossível capturar a vida de um herói da vida real que dedicou a sua vida a uma causa justa, correta e nobre, que lutou pela liberdade de todos os povos e etnias. Romances são escritos e trazem heróis de um amor impossível, de um amor possível, por uma mulher ou, em alguns casos, por sua pátria, assim, a literatura universal, além dos clássicos gregos, conheceu obras como Iracema, Eurico, o presbítero e Taras Bulba, na Idade Contemporânea.

Taras Bulba retrata a história de um valente cossaco que, ao ver retornar seus dois filhos para a estepe ucraniana, então conhecida por "Pequena Rússia", decide levá-los à batalha contra os muçulmanos, que oprimiam o seu povo através do Império Turco Otomano, até perceberem que na verdade a ameaça maior era a da República das Duas Nações(uma união da Polônia com a Lituânia), que aos poucos vinha tomando as terras dos cossacos e ameaçava sua cultura e suas tradições, levando Taras e seus camaradas(como os cossacos se chamavam entre si) a deixar a siech para cavalgar e combater os poloneses, em defesa da terra russa.

Ao longo da história, muitas vezes é nos momentos de maior tormenta que o homem demonstra seu valor e galhardia, sem dúvidas, um grande exemplo desta descrição foi um famoso cossaco1, tal como o fictício ataman Taras Bulba, o General de Exército Valentin Ivanovich Varennikov, do Exército Vermelho e Exército Russo, nascido em Krasnodar(que significa "presente vermelho", de família camponesa pobre). Seu currículo passa por três grandes guerras, sempre em favor da liberdade e de causas justas. A Segunda Guerra Mundial(1939-45), onde o então recém formado Aspirante Varennikov combateu as hordas do fascismo, numa guerra que, graças aos esforços do povo da União Soviética, livrou o mundo do escravismo e da fúria imperialista de Hitler. Lá, a sua bravura é atestada num dos mais intensos combates da história humana, seu sinônimo: Stalingrado. O tenente Varennikov foi de Stalingrado até Berlim, até se tornar Capitão, com apenas 22 anos, em 1945, ano em que teve a honra de levar a mesma bandeira vermelha da vitória fincada no alto do Reichstag até Moscou. Mais tarde, participou da Guerra do Afeganistão, de 1979 até 1989, quando a União Soviética, então revisionista, combatia os terroristas mujaheedin, ansiosos por estabelecer um fascismo de tipo islâmico, feudal e pró-americano, armado até os dentes pela CIA2, vindo a constituir um dos regimes mais abomináveis do século XX e XXI.

                                                      
                                                 Da esquerda para direita, o então capitão Varennikov é o segundo

Em 1986, quando ainda estava no Afeganistão, Valentin Ivanovich foi designado para outra tarefa emergencial, desta vez em Chernobyl, na República Socialista Soviética da Ucrânia, onde coordenou as forças designadas para liquidar os incêndios que ameaçavam outra explosão no quarto reator. Foi exatamente enquanto patriota e comunista que o velho cossaco do Kuban3 conseguiu entender o valor da bandeira vermelha e da foice e o martelo, razão pela qual tentou impedir que os corruptos e mafiosos, que saquearam a Rússia nos anos 90, destruíssem a União Soviética, vindo a liderar uma medida extraordinária que visou remover Gorbatchov e seus comparsas do poder. A medida, entretanto, não foi bem sucedida e Gorbatchov voltaria ao poder, desta vez seguindo ordens estritas de Borís Yeltsin, o beberrão que em plena TV dava gargalhadas enquanto tanques russos disparavam contra o seu próprio povo em 93. Valentin Varennikov, ironicamente, foi julgado por homens que talvez pouco ou nada fizeram por seu país, sob a acusação de "traição". O velho cossaco de Krasnodar, sob julgamento, afirmou o seguinte:

“Em agosto de 1991 enfrentei outro inimigo, um que estava muito mais oculto, era mais perigoso e ameaçava destruir meu país. Não me arrependo do que fiz, mas tenho a amarga sensação de que não conseguimos salvar o país”

Infelizmente, a ação de Varennikov e de grande parte dos dirigentes soviéticos que tomaram parte neste movimento, ignoraram a ação das massas, indispensáveis em qualquer grande revolução, tornando sua medida de tipo "elitista revolucionária", o mesmo equívoco outrora já cometido por grandes nomes do proletariado como Ernesto Che Guevara,  Carlos Mariguela ou mesmo os integrantes da Facção do Exército Vermelho, cuja premissa partia do princípio de que um grupo seleto de indivíduos pode, em nome das massas e sem a ação destas, simplesmente empreender a revolução e tomar o poder. A história demonstra que, ainda que o próprio Karl Heinrich Marx e outros famosos teóricos revolucionários estivessem à testa desse tipo de movimento, a chance de sucesso desta atitude é nula. É de se esperar, entretanto, que a medida tomada para afastar Gorbatchov tenha sido de improviso.

     Valentin Ivanovich Varennikov, em uniforme comunista soviético, com a estrela dourada de Herói da União Soviética

O certo é que feitas as reformas capitalistas de Gorbatchov, hoje um bon-vivant na Europa, a Rússia conheceu um dos seus períodos mais caóticos no século XX, onde, nas palavras do professor Grover Furr, ocorreu o maior processo de expropriação já registrado na história, onde quase todo um povo teve roubadas as suas fábricas, fazendas coletivas e recursos minerais, que foram parar nas mãos de magnatas mafiosos. A população do país sofreu um decréscimo de quase 5 milhões de pessoas, e estima-se que pelo menos 300 mil filhas da União Soviética foram lançadas no mundo da prostituição. A Rússia perdeu a influência no cenário político internacional, sua economia declinou, o nível de vida tornou-se um dos piores de toda a Europa e a vida cultural foi dominada pela pornografia, pelo alcoolismo, consumismo e outros valores decadentes então praticamente inexistentes na antiga URSS. Foi isso que Varennikov e seus camaradas tentaram impedir. Ressalte-se que enquanto outros membros do movimento liderado pelo general russo aceitaram a anistia oferecida pelo governo, sob a condição de se retirarem da vida pública, o valente Valentin a recusou, conseguindo provar nos tribunais a sua inocência.

Homem de inegável dedicação ao seu povo e à causa da democracia e da liberdade, o camponês cossaco fez intensa oposição a Borís Yeltsin nos anos 90. Em 2003 veio a candidatar-se à Duma pelo partido Rodina, uma coalizão de forças patrióticas de esquerda, e em 2007 retornou ao partido comunista. Nos últimos anos, o General de Exército ocupava o posto honorífico de Inspetor-Geral do Ministério da Defesa. Participou de missões de caráter diplomático, inclusive envolvendo o Presidente Hugo Chávez, a quem entregou uma espada cerimonial.

                                     O Presidente Hugo Chávez recebe do Gen Varennikov um sabre russo

Sem dúvidas, sua mais notável atividade de teor político exercida recentemente foi a defesa, em rede nacional, do líder proletário Iósif Stalin, na campanha midiática The Name of Russia (O nome da Rússia), que visava eleger o nome mais importante da história da Federação Russa, acompanhado por uma série de programa de debates com calor e ânimo presidencial, iniciados após um pequeno documentário sobre o personagem em questão. Estes programas, conforme se sabe, eram bastante tendenciosos, frequentemente espinafrando nomes ligados à União Soviética, eram escolhidos nomes ligados às privatizações da era Yeltsin/Kuchma, dissidentes, todos estes para debater sobre um mesmo nome, enquanto apareciam um ou dois nomes neutros na questão, tais como um líder nacionalista que virou funcionário público, o então metropolita de Smolensk(hoje patriarca de Moscou) e um ou dois nomes a favor, nominalmente o líder do PCRF G. Zyuganov e o General Varennikov. O apresentador, em entrevistas, já havia manifestado inclusive seu interesse em "apresentar Stalin como um grande criminoso em rede nacional", tentativa essa frustrada.

Ocorre que, após a participação no programa, o resultado final da enquete da TV russa resultou em Stalin ocupando o terceiro lugar, após imensos esforços da mídia burguesa russa, o que demonstra que o povo russo não acredita nesta por completo.

V. Varennikov com oficial angolano

Internacionalista, o saudoso general também fora acessor militar na Síria, Etiópia e Angola. Valentin Varennikov, incansável lutador do povo, veio ao descanso eterno em 6 de maio de 2009. Escreveu um livro chamado "Irrepetível", com suas memórias. Presidiu a Liga Internacional para a Dignidade e Segurança da Humanidade. Em carta ao professor brasileiro Júlio César Guedes Antunes, do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, destacou a importância das relações entre Brasil e Rússia, mencionando que os feitos do país tupiniquim, único país latino a declarar guerra ao Eixo, eram conhecidos na Rússia.

Talvez o General Varennikov tenha perdido a batalha política em seu tempo de vida, porém deixou acesa a chama que um dia se converterá em um incêndio revolucionário, através do qual a Rússia poderá ser reconduzida ao caminho da glória, da verdadeira democracia e da liberdade, não a dos especuladores e saqueadores do povo, mas aquela dos camponeses, operários e soldados, vermelha e soviética!

O General de Exército Varennikov em seu uniforme. Aqui ele usa a estrela de diamante, auferida somente aos generais de exército e marechais. Ainda, percebe-se a estrela dourada de Herói da União Soviética e, com fitas vermelhas de borda amarela, a Ordem de Lenin, ao lado de dezenas de outras condecorações


1- Nome que significa "homem livre", de origem turca. Era a designação dada aos camponeses de origem russa, cristianizados, que tinham organização militar própria e fundavam academias conhecidas por "siech". A maioria vivia no território que ia do Don à região do Kuban, no sul da Rússia e do que hoje é a Ucrânia. A princípio não faziam parte de nenhum império europeu, embora a maioria deles defendesse as terras fronteiriças da Rússia contra a Polônia e a Turquia, até submeter-se formalmente ao Império Russo sob a liderança de Bohdan Hmelnytskiy.
Costituíam principalmente tropas de cavalaria leve, razão pela qual o nome "cossaco" se extendeu posteriormente às unidades deste tipo em diferentes países, mesmo sem coneção étnica com os cossacos originais. Muitos foram usados em pogroms nos séculos XIX e XX, e durante a Revolução Russa dividiram-se, uns combatendo do lado "branco" e outros do lado "vermelho", no qual se destacaria Semyon Budyoniy.
Durante a II Guerra Mundial, alguns colaboraram com os nazistas, embora outros tenham lutado do lado soviético e até participado da comemoração da vitória na Praça Vermelha.

2- CIA: Sigla para Agência Central de Inteligência. Organização terrorista americana responsável por assassinatos, tortura, espionagem, guerra psicológica, especialmente contra organizações operárias ou de qualquer tipo de teor social ou nacionalista. Coordenou vários golpes de Estado ao redor do mundo, inclusive tendo apoiado o golpe de 64 no Brasil através da Operação Brother Sam. Com a abertura de seus arquivos, sob a administração de Barack Obama, ficou comprovado que esta mantinha vários centros de tortura além das fronteiras americanas, inclusive na Europa Oriental.

3- Rio do sul da Rússia, próximo do Cáucaso e da Criméia, que desagua no mar de Azov, que deu nome aos cossacos que se estabeleceram em suas margens nos séculos XVIII e XIX.

Vídeo reportagem com seu obituário(em russo: http://www.youtube.com/watch?v=MbW2KF3sh5U

Fontes:

- Artigo da Wikipedia russa sobre Valentin Varennikov, em: http://ru.wikipedia.org/wiki/Варенников,_Валентин_Иванович

- Obituário do jornal The Telegraph: http://www.telegraph.co.uk/news/obituaries/military-obituaries/5297384/General-Valentin-Varennikov.html

- Carta enviada ao Professor Júlio César Guedes Antunes, em: http://2.bp.blogspot.com/_QbsEkeU-AUY/Sgb31hLn1gI/AAAAAAAADj8/s_jlxcQZrW8/s1600-h/valentin_varennikov3.jpg

- Blog "Sala de Guerra", em: http://saladeguerra.blogspot.com/2009/05/nota-de-falecimento-valentin-varennikov.html

- Revista Hasta Siempre Comandante, em: Hastasiempre.info

Um comentário:

Anônimo disse...

meu caro, não é querendo ofender - até porque não acho a palavra ofensiva - mas o sr é um reacionário.