domingo, abril 20, 2014

TEORIA: Contra o Pós-Modernismo

Por Augusto César Mazdaki


Integrantes da banda Pussy Riot, ícone pós-moderno, posando entusiasticamente ao lado de Hillary Clinton, voz do imperialismo

Em discussões políticas e filosóficas de qualquer natureza, quer seja no domínio da história, psicologia, filosofia ou sociologia, sempre há a possibilidade de engajar-se em um debate de forma a desqualificar o debate em si. O agnosticismo ou a afirmação de que “uma vez que não podemos acessar tal conhecimento, não devemos nos importar com a verdade que há por trás de tal dúvida” é uma das faces da arma ideológica que tem por objetivo sufocar o debate e desorientar aqueles que dele participam. O pós-modernismo, a antiteoria que representa o grau supremo degeneração da ideologia liberal-burguesa em si mesma, tem por objetivo dar uma base de sustentação filosófica para afirmações deste tipo.

Para o pós-modernista, a busca pela verdade em uma sociedade, bem como no âmbito da construção ou modificação da mesma, está destinada a fracassar, posto que não existe uma “verdade”, mas muitas. Se quisermos compreender esta perspectiva, ainda que apenas por um momento, somos obrigados a nos perguntar: qual é seu papel, então, no tocante à capacidade do sujeito passivo de se converter em agente ativo, isto é, de compreender e mudar a sociedade? Se a teoria deve ser entendida como uma ferramenta analítica ou científica, como um guia para a compreensão e a transformação das forças sociais, de que forma podem as teorias pós-modernas nos ajudar a empreender tal tarefa? Objetivamente, tais teorias auxiliam ou atravancam as lutas por avanços na sociedade? Cabe a nós, também, fazer a seguinte pergunta: poderia algum progresso na sociedade ser concebido ou simplesmente apreciado, no mundo bizarro, desfigurado, pervertido, deformado e arbitrário da pós-modernidade?

Desde o princípio, faz-se notar a forma como a rejeição dogmática de uma verdade objetiva baseada na realidade material pode impor entraves a uma avaliação da sociedade, uma vez que não pode haver consenso a respeito de um fato qualquer no âmbito do ideário pós-modernista. Qualquer tentativa de analisar um fenômeno sob a luz da ciência será necessariamente recebida com uma infinidade de questionamentos que têm por objetivo a rejeição e a desqualificação de toda análise em si. Ora, isso tudo é muito cabível e aceitável no domínio da mera filosofia, onde debates academicistas acerca do abstrato, e de questões não materiais, inerentes ao mundo das ideias constituem um objetivo em si. Fora deste âmbito, deve-se analisar sob a luz do materialismo dialético e histórico a pirotecnia do pós-modernismo e seus defensores, cujos artifícios consistem em apresentar obstáculos a fim de reiterar a sua visão dogmática da sociedade como um “simulacro” e deambular acerca da multiplicidade das “verdades”. Sem uma análise racional e materialista, o interlocutor pode ser compelido a reduzir o seu discurso a uma mera avaliação de viés e perspectiva próprios, o que, em última análise, acabará por reduzir o discurso do interlocutor a algo próximo a mero desabafo. Agir de forma contrária significaria render-se manifestamente à busca de uma verdade inalcançável. De toda forma, ceder espaço, em qualquer aspecto, à  alegação de que a teoria é incapaz de resolver quaisquer problemas no tocante a um entendimento concreto da realidade equivale a reduzir o trabalho histórico que envolve o estudo, a compreensão e a modificação das diferentes sociedades que existiram ao nível de mera frivolidade. É por esta razão que a ideia do pós-modernismo é inútil, danosa e contraproducente ao entendimento da sociedade e seus mecanismos de funcionamento, bem como à compreensão dos processos necessários às mudanças no seio da mesma.

Além do visceral ataque teórico do pós-modernismo contra o entendimento científico-social da realidade concreta, as implicações da ideia de que há múltiplas “verdades” têm como consequência direta a primazia de percepções individuais em prejuízo de quaisquer conclusões ou entendimentos que sejam obtidos coletivamente. Consequentemente, os pós-modernistas — que, muitas vezes, sequer são capazes de formar entre si um consenso acerca do significado de sua própria filosofia — são, de certo modo, inaptos à ideia de colaboração, posto que suas “verdades” são colocadas em conflito entre si mesmas. Ora, se é mesmo verdadeira a ideia segundo a qual a “verdade” é meramente aquilo que seu “portador” deseja que ela seja (wishful thinking) e não algo que exista fora dos vieses e percepções individuais que o mesmo tem do mundo a seu redor, há algo que respalde a preocupação do intelectual pós-moderno genérico em impor sua própria “verdade” àqueles que têm suas próprias concepções, de natureza individual ou não, do que seria a “verdade”? Ao tomar a verdade como algo de natureza puramente individual — considerando que todos têm por verdades as suas concepções, igualmente válidas —, o pós-modernista, em última análise, vive confinado à sua própria realidade e fracassa miseravelmente em compreender as demais verdades que o conectam a outras pessoas. A verdade universal, através da qual é concebida uma visão correta da realidade objetiva — aquela no âmbito da qual somos todos membros de uma sociedade, que devem contar uns com os outros através de uma complexa rede de relações que nos caracterizam como seres sociais —, é dogmaticamente rejeitada por uma concepção idealista segundo a qual cada pessoa é o artífice de sua própria “verdade”, através da qual tais pessoas interpretam a realidade.

Uma das consequências disso é que parece haver escasso incentivo a um trabalho ideológico, filosófico ou meramente analítico que leve a visões de mundo mutuamente aceitáveis, o que, em última análise, leva a um escasso incentivo a ações concretas, com base nessas visões de mundo mutuamente aceitáveis, que tenham por objetivo mudanças sociais de caráter estrutural. Quaisquer visões de mundo ou interpretações que combinem experiências e observações compartilhadas coletivamente e que tenham como base a realidade concreta não são consideradas qualitativamente superiores àquelas concebidas individualmente no mundo das ideias, logo, por que esforçar-se em trabalhar em conjunto visando alcançar determinado fim? Que sentido há, então, em um trabalho que vise o progresso e a construção de um pensamento de certe forma convergente, se as vazias “verdades” individuais, metafísicas e desconexas da realidade material, têm tanto valor quanto aquelas que levam em consideração o mundo material e sua realidade concreta? A resposta a esta pergunta é: não há qualquer sentido. A ação colaborativa, a interdependência entre os indivíduos, em suma, o “coletivismo”, essencial ao funcionamento, à modificação e à evolução qualitativa de qualquer sociedade, bem como qualquer esforço para a obtenção de uma verdade concreta, não são mais produtivos do que conclusões abstratas e desconexas com o mundo material. As implicações de tais concepções da teoria pós-moderna, tanto enquanto ferramentas para a compreensão da realidade além do indivíduo, quanto no tocante à colaboração (“coletivismo”) e ao trabalho de interpretação dos mecanismos da sociedade — que são essenciais, não apenas ao funcionamento da sociedade, mas também para a sua modificação e melhoramento — não são nenhum pouco positivas.

Como se tais questões não fossem suficientes para tornar a teoria pós-moderna litigável, no sentido dialético e histórico, esta propõe uma série de problemas, mas não aporta quaisquer soluções. Esta teoria vocifera contra noções de poder centralizado, alegando que as bases do poder (analisado aqui como um conceito único e invariável) são as mais diversas e que o poder em si está imprimido nas pessoas na forma de “poder disciplinar” (como, por exemplo, no caso de Michel Foucault), mas não aponta o que pode ser feito para mudar este paradigma, se é que tal paradigma pode, de fato, ser mudado. Outras teorias — não pós-modernas e com uma análise mais atenta à ciência e ao desenvolvimento das sociedades humanas sobre uma base material — fazem referências a problemas que surgem no seio da sociedade e oferecem algumas noções, mais ou menos corretas, de como se chegar a uma solução. Para o weberianismo, o problema está no excesso da autoridade racional legal, e uma solução potencial, embora temporária, seria uma liderança carismática. Para o marxismo — doutrina de caráter científico que tem como base analítica o materialismo dialético e histórico —, a raiz da maior parte dos males sociais se encontra na exploração do homem pelo homem e na propriedade privada dos meios de produção e prestação de serviços, e a solução é uma revolução das classes oprimidas contra a burguesia, encabeçada pelo proletariado. E quanto ao pós-modernista Foucault? Pois bem, se o poder (sempre como um conceito monolítico e invariável) encontra-se tão disperso e tão descentralizado, o pós-modernista certamente não terá quaisquer meios de colocar em cheque tal poder através de uma atividade revolucionária, tal como um marxista faria, e nem tampouco teria ele a opção de colocar suas esperanças em uma autoridade “carismática” a fim de abalar esse poder estabelecido. 

As críticas pós-modernistas são simplesmente isso: críticas. Não oferecem um guia para a ação e tampouco uma metodologia com algum embasamento científico para resistir à injustiça e ao moralmente incorreto conforme se manifestam no mundo material. Tais críticas, bem como as teorias que as embasam, carecem até mesmo de um discernimento moral para fazer uma distinção entre o que é injusto e imoral e o que não é. A razão de ser de tais teorias é não ter qualquer razão de ser. Sem que haja um sustentáculo lógico, sem que haja uma base material de sustentação para tal "verdade", sem que haja uma "verdade" fora das percepções e dos vieses pessoais de um indivíduo, não pode haver um guia para a ação fora do que possa representar a afirmação dessas mesmas percepções e vieses pessoais, de natureza meramente individual. O poder, desta forma, é descentralizado e impresso na persona do indivíduo e limitado à mesma: o que fazer, então, se os "objetos" de minha própria "verdade" pessoal estão submetidos e tal poder?



Um comentário:

Stefano disse...

https://www.youtube.com/watch?v=DCk6CLJKXzs