Extraído da Agência Novorrússia
Tradução do russo para o português por Cristiano Alves*
Nota de A Página Vermelha: As opiniões do entrevistado não representam sempre as mesmas de A Página Vermelha. Condenamos veementemente a ideia de que "os negros são privilegiados" devido ao sistema de cotas em nossa sociedade. Nós de A Página Vermelha também rechaçamos veementemente e manifestamos repúdio pela afirmativa de que "ninguém no Brasil traduz notícias do russo", o que é falso, visto que a A Página Vermelha faz isso desde 2000 através da dedicação e da militância de seu fundador, que não apenas traduz notícias de fontes russas em caráter voluntário como promove a cultura do país. Algumas traduções de A Página Vermelha são referência internacional, servindo inclusive para fontes de informação espanholas.
A despeito do erro do brasileiro, apoiamos o seu espírito de luta e desejamos sucesso nos combates na revolução que se segue no leste da Ucrânia, que hoje tem um caráter internacional e progressista na luta contra as forças mais reacionárias do cenário político ucraniano, lideradas pelo tiranete e oligarca filonazista Petró Poroshenko! O jovem Rafael, a despeito de suas convicções, é um exemplo para qualquer pessoa que aspire ser um revolucionário, e temos a certeza de que seguindo o seu exemplo outros brasileiros verdadeiramente comunistas se juntarão a luta e a apoiarão como puderem!
O VOLUNTÁRIO DO BRASIL: TUDO QUE OS AMERICANOS TOCAM SE DESMANCHA
Rafael é um homem incomum. Nós ouvimos e vimos voluntários da Europa que foram ajudar os milicianos da Novorrússia a defender a sua terra contra a junta de Kiev, mas ainda não houve brasileiros dentre os milicianos. O ex-policial no Brasil que antes serviu na Legião Estrangeira francesa resolveu juntar-se à milícia da Novorrússia. Atualmente, Rafael ainda se encontra nas fileiras das brigadas conjuntas criadas por voluntários franceses e sérvios e, antes de tudo, ficará para combater na composição dessa unidade particular. Nós resolvemos conversar sobre o que o levou a tomar precisamente essa decisão. A primeira coisa que nos impressionou foi o russo suficientemente bom e a aparência não sulista do nosso interlocutor.
- Rafael, por que você resolveu lutar pela Novorrússia? Seus antepassados não são da Rússia? Onde você aprendeu russo?
- Não, meus antepassados vieram há quase 100 anos atrás da Hungria e se estabeleceram no Brasil. O russo eu sei, por que estudei quase um semestre com vocês de medicina em Kursk, isso foi muito difícil... Eu sonhei em ingressar no Exército Russo, mas sem saber russo, é difícil fazer isso. Por isso, assim que surgiu a oportunidade de ir para a Rússia, eu fui para lá. Desde a infância eu amava a Rússia, a cultura russa. Às vezes nos mostravam desenhos soviéticos. Por exemplo, sobre os cossacos. E o meu pai gostava de um filme, "Taras Bulba", que filmaram na Argentina sobre o romance de Nikolay Gogol. Com esses desenhos e filmes tudo começou. Depois eu li bastante, me interessei, o amor pela Rússia se fortaleceu.
Mas por que você resolveu ir à guerra? Amar a Rússia de longe é uma coisa, mas morrer pelos russos é outra.
- Bem, em primeiro lugar, a Rússia e o Brasil estão fortemente ligados pelo BRICS, do que a Rússia precisa, o Brasil também precisa, do ponto de vista geopolítico. O BRICS poderá substituir a hegemonia dos EUA e da Europa no mundo. Claro, se houver ação, e não apenas conversa como agora.
No Brasil há muita influência americana. Tudo que os americanos tocam se desmancha, valores familiares, eu não sou muito religioso, mas a religião também. Tudo se torna sem sentido. Por exemplo, as garotas comuns no Brasil não são feministas, mas muito egoístas. Elas insistem no futuro "americano".
Eu quero viver aqui. Quando surgiu essa crise, quando na Rússia surgiram todos esses problemas, eu pensei, "Eu vou". A guerra não é um problema para mim, por que durante toda a vida eu fui militar.
- Interessante, e onde você serviu?
Aos 18 anos eu me alistei para a Legião Estrangeira na França. Quando eu terminei de servir lá, fui servir na polícia do Brasil, servi na Cavalaria da Polícia. Quando eu estive na Legião estrangeira, lá serviam muitos russos, eles eram considerados os melhores soldados da Legião e eram bons companheiros.
- Participou de ações militares?
- Na Legião Estrangeira eu servi na África. Mas lá haviam apenas instruções. Nós tínhamos que efetuar assistência humanitária.
- E o que você planeja fazer no fim do conflito?
- Eu vou ficar até o final, e depois eu quero permanecer na Novorrússia. Não importa onde. Onde eu puder ficar, lá ficarei.
- No Brasil sabem que você foi lutar pela Novorrússia?
- Não é segredo. Todos os meus amigos no Brasil sabem. Minha família, amigos.
- Há outros brasileiros que estão lutando nas fileiras da milícia ou planejam fazer isso?
- Eu tenho dois amigos que gostariam de ser voluntários na milícia, mas eles não sabem russo. E eles não tem dinheiro para a passagem. Eles querem que eu venha primeiro, saiba de tudo, e depois viriam atrás de mim. Sobre brasileiros que lutariam do lado dos milicianos eu nada sei.
- E como a sociedade brasileira percebe o conflito na Novorrússia?
- No Brasil 50% apoiam a Rússia e 50% a Ucrânia, por que não conhecem a verdade, não sabem o que acontece na verdade. Nossa mídia transmite todo clichê pró-americano, antirrusso. É muito difícil receber informações com credibilidade sobre a Rússia, devido à propaganda americana. Eu conheço a língua, posso buscar informações na internet em russo, e para aqueles que não conhecem a língua, que não estão engajados no assunto, é muito difícil entender. Muitos pensam que o conflito foi iniciado pela Rússia, por que ela quer aumentar o seu território. Não são muitos os que sabem que tudo começou com a Euromaydan, por que a União Europeia queria subjugar a ucrânia. Metade quis isso, metade foi contra, então começou a guerra civil.
- Por que isso está acontecendo, será que há países colaborando, Putin não esteve recentemente convosco, nós estamos entrando juntos no BRICS?
- Eu não consigo entender isso. O BRICS é muito importante para o Brasil. Talvez por que toda a informação que temos vem da Europa ou EUA. Na Rússia ninguém trabalha para nós. Não há intercâmbio cultural. Por exemplo, só há um lugar em todo o Brasil, em São Paulo, onde uma pessoa pode aprender russo. É difícil aprender russo, quase não é demonstrada a cultura russa. As notícias com credibilidade estão em russo. Ninguém as traduz para o português. eu penso que o problema está nisso.
- O que é necessário fazer, para mudar essa atitude?
É necessária uma iniciativa por parte da Rússia. Não há diplomacia pública por parte da Rússia no Brasil.
- Você sabe que do lado de lá não são poucos os estrangeiros que lutam, qual é a sua motivação, na sua opinião?
É a russofobia! Muitos querem se vingar dos russos. Assim, eu sei que do lado ucraniano lutam muitos combatentes islâmicos chechenos.
- Há um ponto de vista de que a Ucrânia é um mero instrumento dos Estados Unidos da América. Você compartilha esse ponto de vista, possui um diferente?
- Sim, isso é verdade. As forças atlantistas, em primeiro lugar EUA e Grã-Bretanha, estão interessadas em enfraquecer a Rússia. Ao Brasil, ao contrário, isso não é necessário. A Rússia é nosso parceiro econômico há tempos. Os EUA, do ponto de vista econômico, agem como inimigos do Brasil, eles tem tarifas muito altas pare nossas mercadorias, apesar de que temos tarifas não tão altas para os produtos deles. As pessoas não gostam disso. Não gostam, também, de que foi revelado que o governo americano conduziu uma espionagem em larga escala no Brasil.
O problema é que a nossa oligarquia brasileira quer ficar do lado da América. E as pessoas, mesmos as que não gostam disso, não pensam. Não há escolas de pensamento. Uma pena, mas é verdade.
- Quer dizer que para você a orientação anti-oligárquica da Novorrússia é clara? Isso toca a alma do brasileiro?
- É verdade. E isso é visível nesse conflito na Novorrússia. Nele os nossos oligarcas e trotskistas tomaram a mesma posição. Contra a Novorrússia e a Rússia. Eles sempre estiveram um contra o outro, e agora estão juntos. Os trotskistas apoiam apenas a Ucrânia e se colocam contra a Rússia.
- E qual é o quadro-geral ideológico no Brasil?
- Demasiado pobre. Existe a "direita" verbal, mas eles são todos liberais. A maioria dos que restam se dizem de esquerda e socialistas, mas normalmente centristas. Me desagrada muito que dentre nós há um forte movimento trotskista nas fileiras de esquerda. Em vez de defenderem os interesses dos operários, eles são contra a Copa do Mundo de futebol, são pelos direitos dos transexuais. E os operários não vivem muito bem. Teoricamente temos um Estado Social, e na prática a corrupção, há benefícios sociais, mas eles são miseráveis. Se você for negro e ainda gay ou inválido, então estará muito bem no Brasil, para você haverá quotas especiais para conseguir trabalho. E se você for um homem branco de orientação normal, então não.
Eu não entendo por que os trotskistas apoiam a Palestina e não apoiam a Novorrússia. Nos dois há uma luta de libertação. Eu gosto mais do stalinismo.
Não há nacionalistas. Até a Segunda Guerra Mundial havia muitos fascistas, mas nós entramos na coalizão anti-hitleristas e os fascistas colocados na ilegalidade. Depois os "nacionalistas" foram os militares, quando eles dirigiram o país, mas economicamente eles também eram liberais. Era tido que se você servia ao exército, então você era "nacionalista".
E que ideologia você mesmo defende?
Eu gosto muito das ideias da "Quarta Teoria Política" de Alexander Duguin. Socialismo, marxismo e comunismo acabaram. O mundo mudou. O capitalismo também não é o mesmo. Eu gostei do que li na "Quarta Teoria Política".
- O que você gostaria de dizer ao povo da Novorrússia, enviar uma uma mensagem das pessoas do Brasil que o apoiam?
- É necessário ficar de pé até o final, a vitória será nossa. Conosco está a verdade.
*Tradutor e intérprete russo-português durante o BRICS 2014 em Fortaleza-CE