sábado, julho 06, 2013

HISTÓRIA: O mito do "bolchevismo judeu"


Por Cristiano Alves

Apesar da significativa participação judaica, os russos predominaram durante  a Revolução de Outubro
É um lugar comum nas ideias de extrema-direita, especialmente no credo fascista, a crença de que "o bolchevismo foi parte de uma conspiração judaico-satano-sionista", de que "a Revolução Russa foi financiada pelos judeus". Esse absurdo propagandístico, oriundo dos tempos do tzar Nikolay II, sempre foi um apelo ao antissemitismo, um flagelo que há tempos atormenta o povo russo, instrumental para a ideologia tzarista. Este artigo demonstra a falsidade de tal teoria.




É um fato, que em qualquer país uma minoria oprimida tende a ver nas ideias comunistas um instumento para sua libertação nacional e colonial, assim, muitos judeus na Rússia voltaram-se para o bolchevismo, curdos na Turquia e negros na América abraçaram ideias comunistas, todavia, de acordo com "Roots of Russian Social Democracy"(As raízes da social-democracia russa), de David Lane, em 1907, no Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo, de 105 delegados, 78% eram russos, 11% eram judeus, 5% eram transcaucasianos(isto é, armenos, azeris e georgianos), 3% eram bálticos, e 1% eram ucranianos. Os judeus eram muito bem representados no, mas nada excepcional, já que os russos formavam 50% da população do Império Russo, sendo desproporcionalmente representados. Segundo Lane, "as principais e mais significantes diferenças entre as duas facções está em seu plano de fundo nacional. Os bolcheviques eram bem mais homogêneos... eles tinham uma pequena minoria de membros judeus, mas eram predominantemente grão-russos"(p. 51).

Em 1917-1923, havia 78 pessoas que ingressaram no Comitê Central. Desses, 38 eram russos, 13 eram judeus, 8 eram ucranianos, 8 eram bálticos, 5 eram transcaucasianos e havia ainda outros 6. Eles eram:

A.S Bubnov, N.I Bukharin, F.E Dzerzhinski, E.M Iaroslavski, M.I Kalinin, L.B Kamenev, A.S Kiselev, V.I Lenin, V.P Miliutin, G.I Petrovski, K.B Radek, Kh.G Rakovski, A.I Rykov, F.A Sergeev, A.G Shliapnikov, V.V Schmidt, I.T Smilga, I.N Smirnov, G.IA Sokolnikov, I.V Stalin, M.P Tomski, L.D Trotsky, G.E Zinoviev, S.G Shaumian, P.A Dzhaparidze, Ia.M Sverdlov, M.S Uritski, A.G Beloborodov, Ia.A Berzin, K.Kh Danishevski, G.E Evdokimov, V.N Iakovleva, A.A Ioffe, V.S Kapsukas, A.M Kollontai, N.N Krestinski, M.M Lashevich, G.I Lomov, M.K Muranov, V.P Nogin, E.A Preobrazhenski, L.P Serebriakov, N.A Skrypnik, E.D Stasova, P.I Stuchka, M.F Vladimirski, A.A Andreev, A.E Badaev, V.Ia Chubar, M.V Frunze, S.I Gusev, S.M Kirov, N.P Komarov, I.I Korotkov, T.S Krivov, V.V Kuibyshev, I.I Kutuzov, D.Z Lebed, I.I Lepse, S.S Lobov, D.Z Manuilski, V.M Mikhailov, A.I Mikoian, V.M Molotov, G.K Ordzhonikidze, V.V Osinski, G.L Piatakov, I.A Piatnitski, A.R Rakhimbaev, Ia.E Rudzutak, G.I Safarov, T.V Saporonov, D.E Sulimov, I.Ia Tuntul, N.A Uglanov, K.E Voroshilov, P.A Zalutski, I.A Zelenski


Os judeus étnicos acima são Iaroslavski, Kamenev (Rosenfeld), Radek (Sobelson), Sokolnikov (Brilliant), Trotsky (Bronstein), Zinoviev (Apfelbaum), Sverdlov (Yankel), Uritski, Ioffe, Lashevich, Gusev, Piatnitski, Zelenski. 

Em 1925, o Comitê Central tinha 58 russos, 12 judeus, 7 transcaucasianos, 5 bálticos, 5 ucranianos e 10 de outras nacionalidades. Embora os judeus constituíssem 2% da população, em 1922 eles eram 17% do Comitê Central. Os bálticos compunham 0,7% da população do Império, mas eram 10% do Comitê Central(incluindo aqui o bielorrusso Félix Dzerjinsky, patrono do KGB). Também havia 2 alemães, Vassili Schmidt e Emanuil Kviring no Comitê Central em 1925.

Em 1934, dos 139 membros do Comitê Central, 72 eram russos e 23 eram judeus. Apesar do aumento, não se verifica aí uma ameaça à maioria russa. Em 1939, de 139 membros, havia 11 judeus, sendo 70% dos membros russos e 21% ucranianos. Em 1952, havia 3 judeus entre os 236 membros, deixando os judeus de ser uma força política notável. Entre 1956-1981, de 948 membros do Comitê Central, 6 eram judeus. Para efeito de comparação, no mesmo período o politburo teve 1 finlândês, Otto Kuusinen, apesar do baixo número de finlandeses na União Soviética.


Para efeito de comparação com os mencheviques, grupo composto de anticomunistas, monarquistas e interventores estrangeiros durante a guerra civil, David Lane, autor de "The roots of Russian social-democracy", estabelece os seguintes dados:

Bolcheviques
82 russos
12 judeus
3 georgianos
2 armenos
1 polonês
1 letão
1 ucraniano
1 estoniano
1 finlandês

1 tártaro

Mencheviques

33 russos
28 georgianos
22 judeus
6 ucranianos
2 poloneses
1 alemão
1 estoniano
1 armeno
1 grego
1 ossétio

Havia, entretanto, alguns setores onde os judeus tinham forte influência, cargos onde detinham grande poder como o Comissariado dos Assuntos Estrangeiros e o Comissariado do Exército e da Marinha(ambos ocupados por Trotsky). Nos principais comissariados militares verificava-se a presença de nenhum russo, 8 letões, 1 alemão e 34 judeus.


Assim, conforme os dados e estatísticas nos informam, constitui um mito antissemítico do tzarismo e do nazismo a ideia de "bolchevismo judeu".


Fontes: 

LANE, David. Roots of Russian Social Democracy
MAWDSLEY, Evan e WHITE, Stephen. The Soviet Elite from Lenin to Gorbachev
Fórum "Revleft". http://www.revleft.com/vb/russian-revolution-funded-t41876/index.html Acesso em 06/07/2013

3 comentários:

Rafael Scovino disse...

Mais e as falas que Lênin, Stálin e a grande maioria dos que presidiram a URSS eram judeus assim os colocando como "minoria a liderar o processo revolucionário soviético" ?

A Página Vermelha disse...

Essas falas não passam de delírios antissemitas, e o artigo em questão refuta isso muito bem!

Mauricio Sosa Recuero disse...

Camarada Cristiano:

Gostaria de saber referente ao voto da URSS favoravel a criação do Estado de Israel.
Me pergunto por qué votou a favor?
Será que haviam esperanças de formar um estado aliado a URSS, socialista visando o comunismo?

Eu acredito que Stalin estava bem informado referente ao sionismo e devía comprender que moralmente e eticamente havia algo perigossisimo em caminho com a criação de Israel como estado.

Um forte abraço camarada Cristiano

Mauricio