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quinta-feira, maio 11, 2023

O mito da socialização das esposas no comunismo

Num país como o Brasil um marxista estrangeiro tem duas opiniões sobre o que se convencionou a chamar de "esquerdista médio" no Brasil: a de que se trata de alguém que "aprendeu" sobre o marxismo por sites de extrema-direita e que apreciou justo o que a extrema-direita aprova ou a de que se trata de alguém que não entendeu a obra de Marx e resolveu interpretá-la a seu próprio modo conforme os seus próprios desvios morais. Sobre este último tipo até mesmo Lenin chegou a comentar, em tom de condenação, numa carta a Clara Zetkin.

Um dos mitos mais recorrentes, tanto por reacionários de direita quanto por liberais, é o de que "os comunistas querem socializar as mulheres". Numa variante do mito cita-se que "Marx pediu a socialização das mulheres no Manifesto Comunista", noutra que os bolcheviques tentaram fazê-lo em 1918.


Desde seu surgimento, o movimento socialista (e comunista como parte dele) tem cooperado ativamente com o feminismo (doravante, por feminismo, quero dizer o feminismo real, e não suas formas extremas, que são melhor chamadas de misantropia), e adota vários de seus slogans. Nesse estágio, os movimentos socialista e feminista estão frequentemente tão interligados que é impossível separar um do outro. O socialismo visa a libertação do homem. E a posição de uma mulher daquela época é simplesmente terrível.

É difícil para uma pessoa moderna imaginar o grau de rebaixamento da posição das mulheres na Europa. As raízes dessa atitude remontam ao alvorecer da Idade Média. 

A ironia da história é que nas sociedades consideradas atrasadas no século 19, a posição das mulheres era muitas vezes melhor do que na "civilizada" Inglaterra. Uma comparação impressionante com o Império Russo da época, com sua energia e sarcasmo característicos, foi feita em 1890 por Blavatsky. Mas isso no final do século. Ainda sob o tzarismo, a Rússia criou a primeira universidade feminina da Europa, a Pavlov de medicina, onde muitos brasileiros que encontram um ambiente mais confortável e viável do que em universidades caras como a Unifor para tirarem os seus diplomas (e ainda podem trabalhar depois como médicos em países como a Alemanha, onde receberão em Euros). Alguns historiadores atribuem ao Grão-Ducado da Finlândia, que então fazia parte do Império Russo, o primeiro Sufrágio Universal.

Em meados do século XIX, a situação nos países "civilizados" era ainda pior. Mesmo em comparação com os países islâmicos, a Europa perde no século XIX. De acordo com o Islã, uma mulher pode herdar livremente e dispor de propriedade sem nenhum guardião. Enquanto na Europa, com raras exceções, a mulher até a década de 1890 era considerada uma “criança tola”, cuja propriedade era totalmente controlada por um homem. Mesmo em relação às mulheres das classes altas que ganham a vida com literatura, juízes ingleses tomaram decisões olhar nos olhos de uma pessoa moderna como pura zombaria, "as habilidades mentais de uma esposa pertencem ao marido". E pronto, ela é obrigada a dar tudo ao marido até o último centavo. O que havia a dizer sobre as classes mais baixas...

As mulheres não tinham direito a nada. Até para os próprios filhos. O que é compreensível, em condições em que se acreditava que ela mesma exigia a guarda, a questão da guarda da criança foi automaticamente resolvida não a seu favor.

Reclame comercial americano

A situação com a educação também é triste. Os mais tolerantes estavam na Suíça, e mesmo lá somente em 1842 as duas primeiras garotas puderam se matricular na Universidade de Zurique como voluntárias. Aos poucos, essa prática começa a abranger a Europa. As mulheres são admitidas nas universidades. Embora com uma série de restrições, a critério do professor, em vários países é necessária a autorização dos pais/marido/responsável. Mas tudo isso, em primeiro lugar, ainda é isolado, não massivamente e, em segundo lugar, não afeta os estratos inferior e médio da população.

Assim, as mulheres foram forçadas a sair de todas as esferas da vida social da sociedade. Seu papel de fato era "constituir o estrato de serviço sem propriedade da sociedade, ligado ao trabalho doméstico, incluindo o trabalho no jardim". Mesmo no universo desportivo a atitude da Europa Ocidental tão "avançada e progressista" chegava ao ridículo quando se tratava das mulheres. Alegava-se na academia europeia que o uso de bicicletas podia causar atrito nas partes íntimas da mulher e assim levá-las ao safismo.

Tal situação não poderia agradar aos socialistas, incluindo os marxistas. Imediatamente após o surgimento do movimento, eles fizeram um forte protesto. E imediatamente tropeçou em um completo mal-entendido, misturado com mentiras. Ecos dessa mentira ainda são encontrados, às vezes nos lugares mais inesperados. 

Claro, Marx tinha um estilo muito pesado, não raro sarcástico. A menos que uma pessoa muito preocupada sexualmente possa dar ao termo socialização, que significa dar à mulher um status social independente, uma conotação sexual. É disso que fala Marx no Manifesto, sem esconder, em texto simples, para zombar. "O burguês vê sua esposa como um mero instrumento de produção. Ele ouve que as ferramentas de produção devem ser disponibilizadas para uso geral e, claro, não consegue se livrar da ideia de que as mulheres sofrerão o mesmo destino".

De fato, para os marxistas, a própria situação era intolerável quando uma mulher na sociedade não sobrevive sozinha. E só resta um caminho para ela, o casamento, embora com uma pessoa não amada. Os marxistas não chamavam essa situação de outra forma senão “prostituição legalizada”. Ríspido demais? Talvez. No entanto, há muita verdade nesta frase. Mas o que eles ofereceram em troca? Os marxistas preferiram não resolver esta questão e deixá-la à inteira disposição das gerações futuras.

Engels formulou plenamente esta tese “Assim, o que podemos agora supor sobre as formas de relações entre os sexos após a iminente destruição da produção capitalista é predominantemente negativo por natureza, limitado na maioria dos casos ao que será eliminado. Mas o que irá substituí-lo? Isso será determinado quando uma nova geração crescer: uma geração de homens que nunca terá que comprar uma mulher por dinheiro ou outro meio social de poder em suas vidas, e uma geração de mulheres que nunca terá que se entregar a um homem. por qualquer outro motivo que não o amor verdadeiro, nem recusar a intimidade com o homem que ama por medo das consequências econômicas. Quando essas pessoas aparecerem, elas farão tudo o que, de acordo com as ideias atuais, deveriam fazer; eles saberão por si mesmos o que fazer,

Apesar da revisão de várias teses de Marx, os bolcheviques não recuaram nem por um momento. Mas então quais são as histórias que vagam de livro em livro sobre a introdução do amor livre por decretos, a nacionalização das mulheres na sociedade civil? A história é atribuída aos bolcheviques ou aos anarquistas (sem esquecer de transferir a culpa de qualquer maneira para os bolcheviques). Como A.Velidov mostra de forma convincente, essas histórias são baseadas no “Decreto sobre a abolição da propriedade privada das mulheres” impresso em Saratov por um certo M.Uvarov. Este “decreto” era falso: Qual era o propósito de Uvarov ao escrever seu “decreto”? Ele queria ridicularizar o niilismo dos anarquistas em questões de família e casamento ou estava tentando deliberadamente colocar grandes setores da população contra eles? Infelizmente, não é mais possível descobrir. Anarquistas furiosos destruíram a casa de chá pertencente ao satirista, mataram-no, emitiram proclamações explicando que não tinham nada a ver com isso. Mas já era tarde. O folheto foi reimpresso por dezenas, senão centenas, de jornais. E em vão os bolcheviques negaram.


A questão permanece, existia tal coisa? Poderia realmente ter sido assim? Sim, poderia. Isso, em uma escala ou outra, existe em quase todas as guerras. E ainda mais em civis, caracterizados pela decadência das normas morais e pela amargura. Portanto, os bolcheviques reagiram nervosamente a todos os rumores sobre isso. Não foi à toa que Lenin deu instruções: “Verifique imediatamente os mais rigorosos, se confirmados, prenda os culpados, é preciso punir os canalhas com severidade e rapidez e notificar toda a população. Desempenho do telégrafo."

Portanto, pode-se dizer de forma bastante inequívoca que durante a guerra civil, é claro, houve violência e coerção. Mas não há como afirmar que as autoridades dos lados opostos estejam relacionadas a isso. Em vez disso, podemos falar sobre o "complexo machista" que ocorreu em tal ambiente. O mesmo complexo marcou o primeiro pós-guerra. “Em um ambiente de caos social, gênero e status de idade tornaram-se de fato os únicos “objetivamente” distinguíveis, e as orientações de gênero adquiriram significado especial em um espaço social amorfo. Eles, mais espontaneamente do que propositalmente, influenciaram a ideologia e os códigos comportamentais das pessoas no poder e tiveram um efeito modelador nas estratégias de sobrevivência da população.

Posfácio:

O "Decreto sobre a Abolição da Propriedade Privada de Mulheres" também ficou amplamente famoso no exterior. O estereótipo dos bolcheviques como destruidores da família e do casamento, os defensores da socialização das mulheres foi intensamente introduzido na consciência do homem ocidental da rua. Mesmo algumas figuras públicas e políticas burguesas proeminentes acreditaram nesses sofismas. Em fevereiro-março de 1919, na comissão "Overman" do Senado dos Estados Unidos, durante uma audiência sobre a situação na Rússia, ocorreu um diálogo notável entre um membro da comissão, o senador King, e um americano, Simons, que chegou da Rússia Soviética:

King: Por acaso, vi o texto original em russo e a tradução para o inglês de alguns decretos soviéticos. Na verdade, eles destroem o casamento e introduzem o chamado amor livre. Você sabe algo sobre isso?

Simons: Você encontrará o programa deles no Manifesto Comunista de Marx e Engels. Antes de nossa partida de Petrogrado, se acreditarmos nas notícias dos jornais, eles já haviam estabelecido um regulamento muito definido sobre a chamada socialização das mulheres.

King: Então, para ser franco, homens bolcheviques do Exército Vermelho e homens bolcheviques sequestram, estupram e molestam mulheres tanto quanto querem?

Simons: Claro que sim.

O diálogo foi integralmente incluído no relatório oficial da comissão do Senado, publicado em 1919.

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Breves notas sobre o "esquerdismo ranzinza"

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Desde 1989, o equilíbrio de forças políticas sofreu um enorme revés, iniciou-se um período talvez áureo para a reação, o grande império vermelho da justiça social ruiu para dar lugar a regimes oligárquicos que mais tarde ingressariam no Tratado do Atlântico Norte inclusive, a bandeira vermelha seria substituída pela bandeira colorida nas ruas, o internacionalismo proletário seria trocado pelo internacionalismo de organizações ultranacionalistas, PCs foram proibidos em vários países do mundo, inclusive por países nos quais eram o Partido governante. Os métodos de ação e propaganda comunista se tornaram cada vez mais limitados.

Ultimamente, apareceram várias postagens de militantes ou simpatizantes comunistas no Facebook, de pessoas de diferentes idades do Brasil que muitas vezes, devido à sua miopia ou experiência em agitação partidária ou mesmo desconhecimento de modernas técnicas de marketing, usadas com sucesso por políticos das mais variadas correntes no plano político, criaram a figura do "esquerdista ranzinza".

Essas pessoas podem ser divididas em dois tipos, o famoso "esquerdista quebra-vidraça", ou seja, aquele que acredita que ação revolucionária e radical é apenas quebrar a vidraça durante um protesto, é aquele que vai dizer: "vocês são todos pequeno-burgueses, só militam na internet, só militam no bloco de carnaval, ficam sentados atrás de um birô, só sabem fazer fotos", "nunca te vi na rua", quase sempre para eles é indispensável que alguém tenha pelo menos uma foto com um microfone no perfil do Facebook, é inadmissível que estes tenham retratos de momentos de sua vida pessoal, o que eles rapidamente iriam descrever como "vida pequeno-burguesa" e "alta traição". E existe o famoso "esquerdista da bala", aquele que está sempre criticado toda e qualquer ação de rua, que considera como um pecado mortal a propaganda do comunismo num bloco de carnaval ou num evento artístico, pessoas desse meio são encarados como traidores por ter um pincel na mão, em vez de um fuzil, manifestações de rua são consideradas perda de tempo.

Não podemos deixar passar aqui, a propósito, um terceiro ranzina, o gramcianista de academia, que condena tudo que foge ao âmbito academicista como uma "manifestação extremista", "stalinista", "ultrapassada" e inútil, o que fica em cima do muro, desprezando todos os métodos de ação e acreditando que poderá vencer uma guerra cultural dobrando-se a todo custo para conseguir um espaço na mídia burguesa, para a qual ele repetirá de joelhos centenas de vezes que "é a favor do socialismo democrático e contra os excessos totalitários, lenino-stalino-castro-trotsko-maoístas".

Em realidade, esses "esquerdistas ranzinzas" comprovam exclusivamente a sua miopia e inexperiência política. Os bolcheviques, para fazer sua revolução, se valeram de diferentes métodos de propaganda que incluíam a agitação nas fábricas, protestos massivos, piquetes, além de atuação no campo artístico e intelectual, em seus jornais. Alguns desses métodos, entretanto, são obsoletos nos dias atuais, por exemplo, quem lê jornais hoje em dia? Em geral as pessoas hoje leem notícias na internet e por vezes acompanham blogs. Um Maxim Gorky tem mais ou menos valor do que um Chapayev, comandante que empregou eficazes táticas com o uso de metralhadoras? Pensamos que não! Os métodos comunistas de agitação, propaganda e ação devem agir em diferentes correntes internas.

Ora, o Partido comunista de tipo leninista foi concebido como uma organização de tipo militar, Lenin estudou Clausewitz e os principais estrategistas militares que até hoje são lidos em academias militares formadoras de oficiais! Num Exército existe o militar da arma de infantaria, que ocupa o terreno, existe o de artilharia, que "amacia" o terreno, o Mat. Bel., que cuida da manutenção dos motores e da parafernalha dos veículos militares, os Serviços Gerais, que limpam os banheiros, o quartel, a Intendência, que cuida de preparar as refeições dos combatentes, a Inteligência, que cuida da contra-espionagem e métodos diversionários, etc! Será que o infante que ocupa um terreno é mais ou menos importante que o agente de inteligência ou um cozinheiro? Não!

Em vez de jogar pedras em quem atua num campo diferente, esses "esquerdistas ranzinzas" deveriam estudar mais e rever seus conceitos! Do que vale conhecer todos os tomos do Capital, talvez mesmo conhecer cada vírgula das Obras Completas de Marx, Engels, Lenin e Stalin (ou talvez de Antonio Gramsci) e não saber repassar a sua mensagem para um pedreiro ou um soldador?

quarta-feira, maio 18, 2016

CANAL DA VITÓRIA: Documentário sobre a economia de Stalin

A Página Vermelha está lançando um campanha massiva para o financiamento e a realização de um documentário sobre a economia stalinista, marcada pelo estrito planejamento e desenvolvimento da pequena propriedade cooperativa e individual, sem utilização do trabalho assalariado, mas, sobretudo, pela redução gradual dos preços! O documentário também aborda outros pontos polêmicos como o Holodomor, esclarecendo o que realmente aconteceu, e a IIGM, bem como a tentativa de Stalin de reduzir a jornada de trabalho para apenas 5 horas, no final de sua vida.

O documentário foi feito feito na Rússia e conta com excelente apresentação gráfica e apresentador, filmado em Moscou, no centro conhecido como Conquistas Soviéticas da Agricultura Popular (VDNKh), misturando imagens da época com imagens atuais. Confira um trecho do episódio, ainda sem tradução:



Buscamos arrecadar o investimento de R$ 5000,00, indispensável para o financiamento dos custos de produção de legendas, escritório, além de outros recursos físicos e contratação de um revisor na segunda maior cidade da Rússia, São Petersburgo.

Para financiar o projeto, para Brasil, Portugal e outros países, contamos com a arrecadação do:

- Paypal: apaginavermelha@gmail.com
- Site de crowdfunding Vakinha: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/traducao-de-documentario-sobre-o-stalinismo

O financiamento também ajudará na divulgação do projeto. Possuindo 5000 seguidores em nossa página do Facebook e mais de 500 mil visitas em nosso site, acreditamos que atingiremos a meta. Qualquer tipo de ajuda é válida, seja a doação de 1 ou 1000 reais, todas são igualmente importantes! Já foram arrecadados quase R$ 150,00 com apenas uma semana de divulgação.