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quarta-feira, maio 10, 2017

A provação do Marechal Rokossovsky

Por Cristiano Alves



A famosa agência de notícias russa "Regnum" chamou Rokossovsky de "o marechal a quem não foi dada a cidade de Berlim", durante a comemoração de seu aniversário de 120 anos do seu nascimento (Rokossovsky veio a óbito em 1968). Neste dia 9 de maio, marchamos no Regimento Imortal carregando um enorme retrato do Marechal Rokossovsky pelas avenida principal de São Petersburgo, a Avenida Nevsky, mas quem foi esse comunista? O que o torna tão especial e digno de nossa grande admiração?





Rokossovsky nasceu em Varsóvia, na Polônia. Ao contrário de outros marechais soviéticos ele não era russo de nascimento, nem havia nascido numa das repúblicas soviéticas. Quando ele se tornou Herói da União Soviética, pela segunda vez, sua biografia oficial "arrumou um jeitinho" de estabelecer a sua cidade natal como Velikiy Luki, na Rússia, isso por que aquele que se tornava duas vezes Herói da União Soviética tinha direito a um busto em praça pública, assim, não parecia justo que um marechal tivesse seu busto fora do território soviético. Um outro fato marcava a biografia de Rokossovsky, ao contrário de outros bolcheviques, ele vinha da nobreza, o seu pai era um nobre polonês empobrecido, por essa razão ele trocou o seu patronímico.

A carreira militar de Konstantin Rokossovsky iniciou-se em 1914, quando começou a I Guerra Mundial, na cavaleria do Exército Imperial Russo, do qual fazia parte o Reino da Polônia. Ele tornou-se sargento, durante a guerra, combatendo às margens do mar Báltico. Quando o Império Russo entrou em declínio, em 1917, Rokossovsky aderiu aos bolcheviques, muito populares no Front, devido à sua promessa de acabar com uma guerra que não fazia absolutamente sentido algum para a Rússia, sacrificando milhões de vidas de soldados russos numa guerra contra o Império Alemão e que trazia benefícios apenas ao Império Britânico, que matava dois coelhos com uma cajadada só, acabando com dois impérios europeus, o alemão e o russo. Em dezembro de 1917, Rokossovsky deixaria o seu regimento de dragões imperiais para ingressar na Guarda Vermelha e no Exército Vermelho, como fizeram outros famosos sargentos de cavalaria que mais tarde se tornariam os primeiros e mais famosos marechais comunistas da União Soviética, Budyonniy, Voroshilov (o primeiro oficial vermelho) e Júkov. 

O comunista Rokossovsky foi designado para uma nova missão nos anos difíceis da Guerra Civil Russa, integrante agora da Cavalaria Vermelha. A ele foi dado o comando do Regimento de Cavalaria de Volodarskiy, nos montes Urais, parte central da Rússia. A vitória dos bolcheviques naquela região contra o Exército Branco era essencial para impedir a fragmentação da Rússia numa "Rússia Ocidental" e "Rússia Oriental" siberiana governada pelo movimento branco. Na data simbólica de 7 de novembro de 1919 (25 de outubro pelo calendário juliano), Rokossovskiy, que desconhecia o medo, marcou um duelo com o lugar-tenente do Almirante Koltchak, um dos maiores reacionários do movimento branco. O seu lugar tenente era o coronel Voznessenskiy, um anticomunista fervoroso, favorito do almirante branco e disposto acabar com o governo bolchevique a qualquer custo. Enquanto nobre, a sua honra agora estava em jogo e o duelo poderia decidir o resultado do conflito, sem grande derramamento de sangue. Duelos entre cavaleiros eram feitos com a shashka, arma branca dos cossacos adotada dos povos do Cáucaso, da Adiguéia, derivada da faca, feita para decidir em poucos segundos um combate a cavalo ou a pé, devido ao seu extremo poder de corte e de perfuração. Rokossovskiy investiu contra Vozneseenskiy e com apenas um golpe o cavaleiro vermelho desferiu um ataque mortal contra o cavaleiro branco.

A segunda prova de Rokossovskiy enquanto comandante da Cavalaria Vermelha se deu contra um inimigo que tinha a fama de anticomunista cruel, sádico, abertamente e sem máscara antissemita, um inimigo que se dizia a "reincarnação de Genghis Khan", um monarquista cujo fanatismo assustava até mesmo os seus colegas do Exército Branco, que combatia em uniformes mongóis com a platina de marechal e proclamava como o seu objetivo construir um enorme império que iria da Ásia até a Europa (ideia mais tarde adotada pelos eurasianistas, que o cultuam), que afirmava ser um nobre descendente dos cruzados, conhecedor de mais de 70 gerações de sua família, e que o "bolchevismo judeu" fora criado há mais de 3000 ano na Babilônia, o Barão von Ungern, nobre alemão étnico que fazia parte do exército do tzar, amigo do XIII Dalai Lama, budista convertido, conhecido pelos epítetos "Barão Sanguinário" e "Barão Louco". Em 1921, o cavaleiro vermelho Rokossovskiy destruiu as forças do general Rezuhin, do exército asiático do Barão Sanguinário, entretanto, ele próprio foi ferido gravemente em combate. Pela sua vitória ele recebeu a Ordem da Estrela Vermelha.

Ao final da Guerra Civil, em 1923, Rokossovskiy casou-se com Yulia Barminaya, sua primeira e única esposa por toda a vida. Era um marido exemplar que frequentemente dividia as tarefas domésticas com a esposa.
Rokossovskiy com a sua esposa, com quem ficaria até o fim da vida
Durante o período entre guerras, Rokossovskiy galgaria diversas posições no Exército Vermelho, após seus estudos iniciados em 1924, ano no qual conheceria um outro cavaleiro vermelho veterano de combates na Ucrânia, Georgiy Júkov, descrito por Rokossovskiy como um estudante obcecado, que no alojamento tinha sempre mapas espalhados pelo chão. Júkov, mais tarde, descreveria Rokossovskiy como um comandante pouco exigente com os seus subordinados, qualidades prejudiciais a um comandante.

Mas a sorte de Rokossovskiy viria a mudar em 1937. O premier soviético Iósif Stalin, também secretário-geral do PCUS, cometeria o gravíssimo erro de nomear para a chefia do NKVD um policial "comunista" que se apresentava como extremamente zeloso, como um comunista ortodoxo, leal e dedicado, mas que em realidade se tratava de um fanático, sádico e homossexual, Nikolay Yejov, que ascendeu á chefia dos Assuntso Internos após o desmascaramento de Genrih Yagoda, o mesmo que havia sugerido a criminalização do homossexualismo. Rokossovskiy, então, seria vítima do sádico homossexual, acusado de ser um agente do Japão e da Polônia, ele foi preso pelo NKVD enquanto ia à cidade de Leningrado (São Petersburgo) e expulso do Partido Comunista. Uma das principais acusações contra Rokossovskiy era a de ter se encontrado com o agente da contra-inteligência japonesa em Harbin, Mititaru Komatsubara. Rokossovskiy, na prisão do NKVD, sofreu as piores provações, ele teve dois dentes frontais seus quebrados em um interrogatório, seus dedos foram quebrados com um martelo, duas costelas suas foram quebradas com socos e ele passou por uma execução simulada com munição de festim. 

Nenhuma das tentativas de forçar Rokossovskiy a confessar a sua própria culpa funcionou. Nas palavras de seu neto, toda a acusação era baseada no relato do polonês Adolf Yushkevich, camarada de armas de Rokossovskiy durante a Guerra Civil. Mas Rokossovskiy sabia, que Yushkevich já havia falecido há muito tempo, e afirmou que concordaria em assinar a confissão caso trouxessem Yushkevich à sua presença. Conquanto iniciaram a busca por Yushkevich, foi constatado que ele já havia morrido. Foi marcado um julgamento para Konstantin Rokossovskiy, porém um dos membros do Colégio de Justiça Militar responsáveis pelo seu processo constatou que todas as testemunhas de acusação já haviam morrido. Foi marcada uma segunda audiência, também com acusações obtidas por meios ilícitos. O polaco nem confessou os crimes a ele atribuídos e nem entregou outros a quem inimigos disfarçados o quepe azul do NKVD pretendiam incriminar. Existe uma versão de que na época, Rokossovskiy foi secretamente enviado à Guerra Civil Espanhola.

Nikolay Yejov, líder do NKVD, homossexual, foi responsável por fabricar inúmeras acusações falsas contra personalidades leais ao comunismo, o que depois seria atribuído a Stalin. Ao contrário do que acontece em outros países, sua posição de autoridade não o impediu de ser processado, julgado, condenado e fuzilado por traição. Também foi o único membro do Comitê Central processado pelo crime de pederastia, passível de até 2 anos de prisão na RSFS da Rússia. Yejov frequentemente organizava orgias homossexuais e fazia lobby para seus parceiros no NKVD
Em 1940, Rokossovskiy foi solto, reabilitado e reintroduzido no partido, enviado para um descanso com a sua família em Sochi, no Mar Negro, colocado no comando de um corpo motorizado. 

Rokossovskiy enquanto general comunista
Rokossovskiy voltaria à guerra em 1941, colocado no comando da Batalha de Moscou, como tenente-general. Sob o seu comando estive a lendária unidade sob o comando do general Panfilov, que deteve uma unidade blindada alemã usando apenas fuzis e canhões antitanque, uma lenda do Exército Vermelho. A Batalha de Moscou então apresentava ao mundo dois grandes gênios militares, Rokossovskiy e Júkov. Em março de 1942, foi ferido por uma granada de morteiro, na região de Moscou, em julho já estava de volta à batalha na região de Stalingrado, onde no comando da Frente do Don, durante a Operação Urano, efetuou o cerco ao Marechal de Campo von Paulus, do III Reich, suas tropas capturaram ainda 24 generais, 2500 oficiais e 95 mil soldados nazistas. Stalin chamava Rokossovskiy por seu nome e patronímico, o que na cultura russa geralmente é feito como sinal de respeito por uma personalidade, geralmente mais velha. Pelo seu êxito militar, foi enviado à grande Batalha de Kursk, no qual triunfou. A ele foi encarregada a missão de libertar a República Socialista Soviética da Bielorrússia, ele próprio era filho de uma bielorrussa, e por sua vitória na Operação Bagration, junto a Júkov e Vassilievskiy, Rokossovskiy recebeu a Estrela de Diamantes e foi promovido a Marechal da União Soviética. 

Após a libertação da Bielorrússia Soviética, Rokossovskiy foi nomeado comandante da 1ª Frente Bielorrussa e Júkov da 2ª Frente Bielorrussa. A 1ª Frente Bielorrussa, com a missão de tomar a cidade de Berlim, seguiu rumo à Polônia, eles eram especialmente esperados em Varsóvia, onde teve lugar o "Levante de Varsóvia". As conversações entre Stalin e Stanislav Mikolaychik foram marcadas por grande ceticismo por parte do premier soviético, que alegava que grande parte dos insurgentes sequer tinham armas, enquanto os alemães tinham 3 divisões de tanques só em Varsóvia, sem contar a infantaria. Era típico do pensamento militar de Stalin e de uma forma geral da estratégia soviética apoiar somente grupos armados dos quais se pode ter a certeza da vitória, e essa foi uma das razões pelas quais ele não apoiou inicialmente a iniciativa de Kim Il Sung de reunificar a península coreana anos mais tarde. O Komintern cometeu esse erro diversas vezes, por exemplo, no Brasil. Pode-se imaginar a reação de Rokossovskiy ao saber que não poderia ajudar em sua cidade natal, Varsóvia, os seus compatriotas, o que inevitavelmente levaria a grandes perdas humanas para o Exército Vermelho, e decisões dessa natureza não faziam parte da personalidade de Konstantin Rokossovskiy. 

Após a sua campanha na Polônia, um telefonema de Stalin mudava Rokossovskiy para o comando da 2ª Frente Bielorrussa, Júkov recebia o comando da 1ª Frente. Essa decisão de Stalin mudou radicalmente o relacionamento de Rokossovskiy com Júkov, considerando-o culpado pela situação. "Por que essa indelicadeza?", telefonou o comunista de Varsóvia ao comunista russo. A partir daí acabava a amizade entre os dois. Para tentar reatar as suas relações com Rokossovskiy, Júkov após a guerra faria de tudo para encontrar a irmã de Rokossovskiy, que morava em Varsóvia e não o via há mais de 30 anos.

Rokossovskiy participou do Cerco a Berlim, mas foi Júkov que efetivamente tomou a cidade e recebeu a rendição alemã. No filme "A queda de Berlim" (Padenye Berlina), assistido por mais de 30 milhões de pessoas no mundo inteiro, Rokossovskiy, junto com Konyev, é exibido recebendo de Stalin os agradecimentos pela operação de cerco a Berlim. Júkov não é exibido na cena por que após a guerra caiu em desgraça com Stalin devido ao contrabando de espólios de guerra, sendo transferido para um distrito militar de menos importância e o comando das forças soviéticas na Alemanha Oriental. Júkov e Rokossovskiy se encontraram na primeira Parada da Vitória, organizada em junho de 1945, ambos encontram-se a cavalo, Rokossovskiy passa o comando da parada a G. Júkov.

Em 1949, com a formação do governo comunista da República Popular da Polônia, o presidente Boleslav Byerut, aliado de Stalin, pede ajuda a este para a formação de um exército da nova Polônia. Diversas cidades polonesas, incluindo Gdansk, reconheceram Rokossovskiy como seu cidadão de honra, Rokossovskiy seguia então para a Polônia, onde ocuparia o cargo de Ministro da Defesa da Polônia e ingressaria no Partido Comunista Polonês, tornando-se também Marechal da Polônia. Assim, Rokossovskiy tornava-se um militar de 3 forças armadas (Exército Imperial Russo, Exército Vermelho e Exército Polonês) e marechal de dois exércitos. 

Rokossovskiy como Marechal da Polônia
De 1949 a 1955, Rokossovskiy participaria da formação do novo Exército Polonês, organizado conforme os moldes soviéticos. Ele também integraria a presidência do Conselho de Ministros e o Politburo do PC Polonês. Em 1950, dois atentados contra a sua vida foram fracassados organizados por nacionalistas poloneses e por militares do Exército Polonês que serviram no Exército Nacional (Armiya Krayowa, o mesmo do papa João Paulo II) durante a IIGM. Em 1955, após anos sem ver o colega, Rokossovskiy se encontraria mais uma vez com Júkov, para participar da criação da aliança militar firmada pela União Soviética com as novas repúblicas populares e socialistas, surgia o Pacto de Varsóvia, após a recusa da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) de incluir em suas forças, como Estado participante, a União Soviética. 

O ano de 1956 seria um ano de novos problemas para Rokossovskiy, com a campanha da "desestalinização" de Nikita Khruschov, que ascendeu ao poder com a ajuda de G. Júkov após a morte de Stalin, o presidente Byerut foi removido do seu cargo acusado de ser "stalinista". O novo presidente Wladislaw Gomulka não gostava nenhum pouco de Rokossovskiy, a quem acusava de "stalinismo", o que levou a expulsão de Rokossovskiy de todas as suas funções e do Partido Comunista Polonês. Rokossovskiy, então, devido à perseguição política, voltou à União Soviética, deixando todos os seus pertences na Polônia para os seus funcionários.

De volta à União Soviética, foi colocado no posto de vice-ministro da defesa, responsável pela inspeção das forças armadas. Em 1962, Nikita Khruschov pediu a Rokossovskiy que escrevesse um artigo difamatório e caluniador sobre Iossif Stalin. O marechal soviético, como nos informa o marechal Golovanov, respondeu "Nikita Sergeyevich, o camarada Stalin para mim é um santo", e no banquete ele sequer falou com Hruschov. Essa afirmação valeu, no dia seguinte, a remoção de Rokossovskiy do posto de vice-ministro da defesa. O marechal comunista era contra a participação das forças armadas na política soviética.

Ao final de sua vida, Rokossovskiy passaria a escrever para um jornal militar. Ele escreveu suas memórias, "Soldatskiy dolg" (Dever do soldado). Internado com câncer em um hospital soviético, ele se encontraria novamente com o marechal Júkov, a quem pediria desculpas por suas ofensas. Ao final de sua vida, Rokossovskiy possuía medalhas não apenas da União Soviética, como também da Polônia, Reino Unido, França e dos Estados Unidos. Nas palavras de seu neto, Leonid Brejnyev, o novo premier soviético, chorou durante o velório do marechal Konstantin Rokossovskiy, um homem que apesar de todas as injustiças sofridas jamais traiu o seu país. Por essa razão, junto a comunistas da Federação Russa, com orgulho carreguei no Regimento Imortal de São Petersburgo, em 2017, o retrato do marechal Konstantin Rokossovskiy.



Fontes: 

Marshal kotoromu ne dali vzyat Berlina: http://www.aif.ru/society/history/marshal_kotoromu_ne_dali_vzyat_berlin_istoriya_konstantina_rokossovskogo
Kak marshaly Jukov i Rokossovskiy otnosilis k drug druga:
https://rg.ru/2016/12/01/kak-marshaly-zhukov-i-rokossovskij-otnosilis-drug-k-drugu.html

sábado, abril 01, 2017

Encontro com o escritor Nikolay Starikov e a sociedade petersburguense em livraria

Por Cristiano Alves

Encontrei-me recentemente com o escritor russo Nikolay Starikov na livraria Bukvoed de São Petersburgo. Starikov também é o líder do Partido da Grande Pátria (PVO). O encontro tratou de temas da história e da atualidade russa, incluindo escândalo envolvendo Dmitriy Medvedev. Starikov criticou os liberais russos, uma vez que estes mesmos são a razão pela qual Medvedev (acusado de um escândalo de corrupção) está no poder. Acredita-se que a Rússia perde o equivalente a um PIB por ano devido à corrupção. O encontro se deu dois dias antes dos grandes protestos na Rússia noticiados inclusive pela mídia ocidental.

Foi tratado também do tema Donbass e Nagorno-Karabah. Um jovem armênio perguntou por que a Rússia não ajuda a Armênia a recuperar dos azeris (turcos) a província em litígio. Starikov respondeu que é um erro achar que a Rússia não ajuda, em realidade existe ajuda russa, mas a Rússia não pode cometer o mesmo erro do início do século XX, quando em socorro à Sérvia entrou na IGM e assim acabou enquanto império. Há outros tipos de ajuda, segundo Starikov, e a diplomática é uma delas, sem a qual, por exemplo, as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk não sobreviveriam. Starikov também criticou o mau uso da internet, mencionando por exemplo, que é possível encontrar ao seu respeito um retrato seu com um desenho de um kipar afirmando ser ele um "judeu maçônico" e noutra página um mesmo desenho afirmando ser ele um "antissemita fervoroso". Fica evidente a falta de coerência dos odiadores. 

Outra pergunta feita a Starikov, por um participante de aparentes inclinações liberais, seria se é justificável o derramamento de sangue em nome da construção de um experimento social, ele emenda a sua pergunta perguntando por que Starikov defende Stalin. Starikov respondeu que não, e Stalin foi responsável por parar com as repressões ao nomear Lavrentiy Beriya para a chefia do NKVD, que liberou 200 mil pessoas injustamente reprimidas por Yejov. A ideia de que Stalin era um maníaco obsessivo por repressões, sanguinário, é uma mentira, a principal dos liberais! Ele menciona que a maioria das repressões injustas se deram em 1938, diferente das de 1937 quando os condenados foram julgados. Starikov afirmou que as repressões de 1938 se deram em grande parte sem julgamento ou foram fabricações de NIkolay Yejov, que era homossexual e organizava orgias coletivas com membros do NKVD, evidentemente seus correligionários pederastas. Aqui, enfatizamos nós, está mais um motivo pelo qual nenhum movimento comunista, de esquerda ou progressista deve jamais permitir que homossexuais galguem posições no partido, pois homossexuais, sejam no Partido Comunista ou qualquer outra organização, foram um lobby, um "partido dentro do partido", assim como a maçonaria e outras organizações. Essa, a propósito, era a razão pela qual o Partido Comunista exigia de seus membros o ateísmo, para que não houvesse um lobby de uma religião específica, e também a razão pela qual o Estado soviético não bendizia a comunidade de roqueiros. A Rússia imperial, desde a Revolta dos Decembristas, no século XIX, promovida pela maçonaria, passou a ser extremamente vigilante com "sociedades secretas" e outros movimentos sociais, preocupação essa herdada pela Rússia soviética e pela Rússia capitalista.

É importante enfatizar que a despeito de seus problemas, a Rússia é um país onde vigora a liberdade de expressão, em verdade com limites, como em qualquer país capitalista, liberdade sem limites não é liberdade, mas arbitrariedade, já dizia o Barão de Montesquieu, todavia o discurso de Starikov demonstra que muito mais do que em qualquer outro país capitalista. Foi interessante o momento em que Starikov pediu para que se manifestasse alguém que acredita que os EUA promovem a democracia, mas ninguém se manifestou, o que Starikov elogiou.

O encontro encerrou com a distribuição de autógrafos, dele participaram pessoas de todas as idades, homens e mulheres.








Jovem russa segura um exemplar de "Stalin, napominaem vmeste" (Stalin, recordemos juntos, em trad. literal)
 
Cristiano Alves com Starikov e um exemplar de "Кризис: как это начинается?" (lit. Crise: como ela começa?)
Vídeo na íntegra (em russo):


quarta-feira, maio 18, 2016

CANAL DA VITÓRIA: Documentário sobre a economia de Stalin

A Página Vermelha está lançando um campanha massiva para o financiamento e a realização de um documentário sobre a economia stalinista, marcada pelo estrito planejamento e desenvolvimento da pequena propriedade cooperativa e individual, sem utilização do trabalho assalariado, mas, sobretudo, pela redução gradual dos preços! O documentário também aborda outros pontos polêmicos como o Holodomor, esclarecendo o que realmente aconteceu, e a IIGM, bem como a tentativa de Stalin de reduzir a jornada de trabalho para apenas 5 horas, no final de sua vida.

O documentário foi feito feito na Rússia e conta com excelente apresentação gráfica e apresentador, filmado em Moscou, no centro conhecido como Conquistas Soviéticas da Agricultura Popular (VDNKh), misturando imagens da época com imagens atuais. Confira um trecho do episódio, ainda sem tradução:



Buscamos arrecadar o investimento de R$ 5000,00, indispensável para o financiamento dos custos de produção de legendas, escritório, além de outros recursos físicos e contratação de um revisor na segunda maior cidade da Rússia, São Petersburgo.

Para financiar o projeto, para Brasil, Portugal e outros países, contamos com a arrecadação do:

- Paypal: apaginavermelha@gmail.com
- Site de crowdfunding Vakinha: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/traducao-de-documentario-sobre-o-stalinismo

O financiamento também ajudará na divulgação do projeto. Possuindo 5000 seguidores em nossa página do Facebook e mais de 500 mil visitas em nosso site, acreditamos que atingiremos a meta. Qualquer tipo de ajuda é válida, seja a doação de 1 ou 1000 reais, todas são igualmente importantes! Já foram arrecadados quase R$ 150,00 com apenas uma semana de divulgação.

quarta-feira, julho 01, 2015

NOVORRÚSSIA: Temos que resistir no Donbass, entrevista com uma miliciana

Tradução russo-português de Cristiano Alves

Introdução de A Página Vermelha: Enquanto muitos ditos "homens" idolatram pervertidos e a Casa Branca, uma jovem siberiana pegou em armas para lutar contra Kiev e os valores ocidentais que os neonazistas pretendem impor na Ucrânia Oriental.

Como é que garotas do interior dos Urais aparecem na milícia do Donbass? Como elas combatem? O que elas dizem sobre isso?

Outro dia eu tive o prazer de conversar com uma dessas valentes garotas. O nome dela é Svetlana, ela tem pouco mais de 20 anos, nasceu e vive na cidade de Solikamsk, na região de Perm, antes trabalhava com tipografia. A guerra na Donbass não a deixou indiferente e, em novembro de 2014, Svetlana demitiu-se do trabalho, recebeu a indenização, gastou dinheiro com presentes para crianças de Donetsk e partiu para o Donbass.

Svetlana passou a servir no batalhão “Pyatnashka”. Primeiramente trabalhou conseguindo na Rússia ajuda humanitária, distribuindo-a para os necessitados. Entregava comida e roupas a pessoas que viviam em porões. Para as crianças ela trazia bombons. “Se vocês vissem os seus olhos!” – diz Svetlana sobre as crianças de Donetsk, e os olhos da própria Svetlana mudam, tornando-se vivazes.

"E o que você fazia em Donetsk?" - pergunto eu.

"Não consegui ficar muito tempo sentada como ajudante humanitária, pedi para entrar em um grupo de combate” – responde Svetlana. 

"Por que?" - pergunto.

"De fato, não quero que a guerra chegue à Rússia. Preciso parar isso tudo lá" - responde Svetlana.

E torna-se compreensível por que a frágil garota largou o trabalho, por que em meio à incompreensão de conhecidos e parentes ela deixou a sua cidade natal, por que ela foi ao próprio inferno e por que ela pegou em armas.
Abaixo, passo algumas das mais interessantes partes da nossa conversa.

Sobre a construção do Estado na RPD (República Popular de Donetsk)

Pergunta: “Como se dá hoje a construção do Estado na RPD?”

Svetlana: “Constroem, ativamente constroem. Organizaram seus comissariados de recrutamento militar (adiante CRM), através deles se dá a mobilização dos donenses no exército. Organizam o pagamento de benefícios, pensões. As pessoas gostam muito de Zaharchenko e esperam dele a melhoria em sua vida”.

Sobre o espírito combativo dos habitantes da RPD e da milícia

Pergunta: “E como é o povo de Donetsk? Há prontidão de combate, para guerrear?”

Svetlana: “A guerra afetou muito os cidadãos pacíficos. Mas no exército da RPD o espírito de luta é muito alto. Afinal de contas, por que temos tanto sucesso, por que temos poucas perdas? Por que temos um alto espírito de luta, alta motivação. E os soldados das Forças Armadas Ucranianas (adiante FAU) vem aqui involuntariamente, não querem guerrear.  A propósito, atrás das posições das FAU estão os “pravoseki” (NT: membros do Praviy Sektor), a guarda nacional, como destacamento punitivo*. Eles mesmos não se envolvem na batalha... nós fizemos muitos prisioneiros, as FAU não querem guerrear... Agora temos potencial militar bem maior, do que tínhamos a um ano atrás. Das FAU, nos “caldeirões”, nós tomamos o máximo que pudemos, armas, munições, equipamentos!”

Pergunta: "Muitos nativos estão na milícia?"

Svetlana: "Muitos, oitenta a noventa por cento. Os milicianos tem um moral muito elevado. Eles correm em direção à luta".

Sobre como tudo começou

Pergunta: “E como foi que tudo começou na primavera de 2014? O que dizem os habitantes locais?”

Svetlana: “Aqueles com quem eu conversei, em sua maioria, disseram que eles queriam se separar da Ucrânia, juntar-se à Rússia ou viver independentemente. Os nativos se levantaram por si mesmos, se auto-organizaram, eles mesmos invadiram as administrações locais...”

Sobre Strelkov

Pergunta: “E quem é Strelkov, o que falam a seu respeito em Donetsk?”

Svetlana: “Sim, já esqueceram dele. Quando no ano passado ele entregou Slavyansk e veio para Donetsk, muitos falaram dele. E agora na Rússia, ele faz discursos... Lembrar de que a respeito dele?”

Sobre a defesa de Slavyansk

Pergunta: “E o que falam a respeito de Slavyansk? Era possível defende-la, mantê-la?”

Svetlana: “Entregaram em vão. A milícia poderia manter Slavyansk, em sua maior parte, dizem. E Strelkov? A entrega de Slavyansk não foi covardia dele, mas antes de tudo estupidez...”

Sobre a ajuda humanitária.

Pergunta: “Há rumores de que a ajuda humanitária da Rússia é vendida em Donetsk nos mercados e lojas. É verdade?”

Svetlana: “Antes poderia ser, mas não agora. Mercadorias russas vem para Donetsk apenas em comboios humanitários. Se alguém ver em uma loja mercadorias, mesmo que remotamente pareçam com ajuda humanitária da Rússia, então o dono da loja não apenas é multado... Isso é rigorosamente punido”.

Sobre ações militares

Pergunta: “De que ações militares você participou pessoalmente?”

Svetlana: “Agora nós estamos a 200 metros das FAU em Marinka. Eu olho no binóculos, e os soldados das FAU me observam. Os soldados das FAU adoram sentar-se em residências, colocam tanques no meio da rua. Como atirar neles? A nossa unidade ajudou a tomar o aeroporto de Donetsk, lá nós tomamos muitos uniformes da OTAN. Mochilas (mostra a sua), kits de primeiros socorros, rações, fuzis M-4... O Ocidente está ajudando a Ucrânia seriamente, e mesmo as próprias FAU se preparam seriamente. Nós, em Debaltsevo, após a libertação, invadimos muitos hangares com alimentos, armas, equipamentos e munições, que as FAU prepararam para si. Eles poderiam se defender durante a metade do ano...”

Sobre Donetsk

Pergunta: “Fale de Donetsk, o que achou da cidade?”

Svetlana: “Donetsk é uma cidade muito bonita, o centro da cidade mesmo agora está em condição quase ideal. Lá crescem rosas, Donetsk é geralmente chamada de a cidade das rosas. Se é necessário limpar, as pessoas saem aos sábados maciçamente e de forma gratuita. Pessoas fortes, vencê-las é impossível”

Sobre a relação dos civis com os milicianos

Pergunta: “Como os habitantes nativos se relacionam com a milícia, com o exército?”

Svetlana: “Como se relacionam com a milícia? Dou um exemplo: às vezes nas trincheiras de combate nos faltam batatas** e nós vamos até os nativos trocar carne enlatada por batatas, temos muita. Então eles não pegam a carne moída, dizem: “Você já nos ajuda! Fique com elas”. Uma mulher foi nos chamar na adega, pediu para pegar as compotas, com conservas. “Só devolvam as latas”. Depois as FAU mataram o seu marido e a feriram...”

Sobre as relações com a Rússia

Pergunta: “Algumas fontes na Rússia “divulgam” que no Donbass não gostam da Rússia e dos russos”

Svetlana: “As pessoas se dão muito bem com a Rússia e com os russos. No inverno aqui eu tive resfriado, fui até a enfermaria de Donetsk, pedi ajuda. Então lá, melhor do que na Rússia, eles me trataram, vieram atrás de mim, me levaram, cuidaram de mim. Fui curada... A eles sou muito grata.”

Sobre os habitantes dos territórios ocupados pela Junta banderista*

Pergunta: “Qual é a sua relação com os habitantes da Ucrânia?”

Svetlana: “Às vezes nos ajudam os nativos de Donetsk de locais temporariamente ocupados pela Junta. Falam das FAU, para onde se mudaram... Eles vivem lá com medo, revistam tudo, levam as pessoas. Batem à porta e os vizinhos são despejados pelas FAU, em seus lugares colocam outras pessoas... A Ucrânia hoje vive um bloqueio de informação... Quando o povo da Ucrânia conhecer a verdade, ele se levantará”.

Sobre o principal

Pergunta: “E que saída você vê para essa guerra civil?”

Svetlana: “Chegar até Kiev. Não há outra opção, eles não vão descançar. Nós temos que resistir no Donbass! Ninguém “enterra” o Donbass, não o entregará a essas pessoas. Nós temos que defender essas terras, do contrário a guerra irá até a Crimeia, à Rússia, a Rússia irá guerrear com a OTAN no território da Ucrânia. E não serão granadas que irão voar, mas foguetes atômicos”.

Hoje Svetlana voltou a Donetsk para lutar pela Rússia, pelo Donbass, pelo povo. Contra o fascismo.
Foto de Svetlana com uma metralhadora 7,62, de seu arquivo pessoal


*Originalmente, “zagradotryad”, tropas punitivas responsáveis por atirar em soldados que tentam fugir da guerra. Não confundir com a expressão “batalhão punitivo”, responsável por promover atos de terror e bombardear civis na Ucrânia Oriental.
**Na Rússia, Novorrússia e Ucrânia, é comum usar como complemento alimentar a batata, em vez de arroz, como no Brasil ou partes da Ásia.
***Seguidora das ideias de Stepan Bandera, colaborador de Hitler na Ucrânia e agente da inteligência do III Reich, o Abwehr, conhecido sadista e pervertido sexual responsável pelo assassinato e estupro de russos, ucranianos e de poloneses no massacre de Volhynia, na Ucrânia Ocidental durante a IIGM.