sexta-feira, agosto 02, 2013

INTERNET: Russos protestam contra novo video game que dissemina russofobia e revisionismo pró-nazista

Por Cristiano Alves


Video game canadense retrata o Exército Soviético como hordas primitivas piores que os nazistas

É sabido que video games, assim como filmes e livros, são obras de ficção, devendo como tal serem encaradas. Entretanto, quando se trata de retratar fatos históricos, espera-se que pelo menos metade de seu conteúdo seja historicamente fiel, ainda mais quando estes assim se declaram ao retratar fatos históricos referentes toda uma civilização e, especialmente se dizem respeito aos pais e avós de toda uma geração. Alguém pode dizer que por mais que um video game seja patologicamente difamatório, "é apenas um jogo". Há algum tempo um certo diretor americano chamado D. W. Grifft dirigiu um certo filme, mas "seria apenas um filme", não fosse o fato de que esse filme, The Birth of a Nation(isto é, O nascimento de uma nação)1 conseguiu a incrível façanha de ressuscitar o Ku Klux Klan, organização que linchava, enforcava e desfigurava negros nos anos 20 e 30, além de ser usado até os anos 70 no processo de formação dos racistas do KKK.

Quando o assunto é um game sobre a "Grande Guerra Patriótica", como é conhecida na Rússia, este passará pelo crivo de uma geração que tem pais e avós que combateram no maior conflito armado da história. Estima-se em mais de 20 milhões o número de vítimas do nazismo só na União Soviética, conforme dados demográficos atestam2 e o presidente John F. Kennedy reconheceu, perdas civis e militares. Mas não foram apenas essas "dezenas de milhões" que participaram da guerra. Uma partizanka(guerrilheira) soviética, cujo nome seria eternizado na história e mesmo poderá ser beatificado na Igreja Ortodoxa Russa, Zoya Kosmodemyanskaya, dissera, antes de ser enforcada e ter seu corpo esquartejado pelos fascistas, que "eles poderiam matá-la, mas atrás dela estariam 200 milhões para combatê-los"(então a população do país em números aproximados). Indubitavelmente, apesar do Exército Vermelho ter combatido, todo o povo soviético participou da defesa do país, fosse o militar que combatia, o operário que fabricava armamentos, o diretor de fábrica que coordenava a produção, os civis, homens e mulheres, que cavavam fossos e trincheiras para defender as capitais, os camponeses ceifadores ou os trabalhadores que constituíam milícias para defender o país, eram todos "soldados". O resultado de toda essa mobilização, foi a destruição de cerca de 80% do efetivo total fascista, do qual faziam parte alemães, italianos, húngaros, romenos, tchecoeslovacos, poloneses e até mesmo voluntários de lugares longínquos como a Espanha, ou países supostamente neutros como a Suécia.

Nos primeiros dias da guerra, só na Fortaleza de Brest, na Bielorrússia, estima-se que os invasores fascistas perderam 4% de seu efetivo total. Os combatentes do ponto mais ocidental do país, mesmo bombardeados pela aviação e a artilharia pesada, resistiram até o último homem, o major Gavrílov, comandante da guarnição. Na Rússia, é difícil encontrar alguém que não tenha pelo menos um avô que tomou parte na "maior demonstração de coragem da história", segundo o Secretário da Guerra dos EUA Henry L. Stimson. Deste modo, qualquer obra referente à Operação Barbarossa carrega uma imensa responsabilidade histórica.

O video game Company of Heroes 2(Companhia de Heróis), da SEGA/Relic Entertainment, logrou em receber a pontuação de 80% do website Metacritic, quando foi anunciado, dados os seus gráficos, seu estilo e o fato de retratar a IIGM em seu momento mais crítico, a Operação Babarrossa, entretanto, após a divulgação de um vídeo do site carambatv.ru, organizado por um internauta chamado Yevgeniy Blájienov, a avaliação do video game caíra para 1.8%. Após o vídeo ter se tornado viral na internet, milhares de internautas, especialmente da Rússia e da Ucrânia, assinaram uma petição online para banir a venda do video game nas ex-repúblicas soviéticas. Mas o que enfureceu tanto os gamers russos?

Segundo seus criadores, Company of Heroes 2 é inspirado nos escritos de Vassiliy Grossman, um jornalista soviético e escritor de ficção de origem judaica que mais tarde, abraçando a causa sionista, virou as costas para o socialismo soviético e adotou a causa ianque por seu apoio decido à criação do Estado de Israel. Ressalte-se que ele jamais fora preso, apesar de sua dissidência. Alegando "veracidade histórica" baseada em escritos fictícios, o "herói" da SEGA/Relic Entertainment é o que o ocidente classifica como um "bom soviético". Na trama, iniciada no GULAG, o tenente do Exército Vermelho com o curioso nome de "Abramovich"(sobrenome de um famoso magnata russo) é informado por um oficial do NKVD que será executado pelos crimes que cometeu, iniciando-se então um flashback no qual o jogador passa a interagir.

O início da campanha(como aliás todo o jogo) carece totalmente de veracidade histórica, trazendo clichês de filmes americanos pseudo-históricos como "O círculo de fogo", no qual soldados soviéticos "defendem Stalingrado sem armas", a despeito de que Exército Vermelho tinha um arsenal de 7 milhões de fuzis Moisin-Nagant para os seus 5 milhões de soldados, tomando em conta que tais fuzis não eram seu único armamento! Como de praxe, os soldados soviéticos virtuais são retratados como suicidas e covardes que lutam não por ideais, não por sua casa ou sua família, mas "apenas pelo medo", ao passo que os americanos, no mesmo jogo, são "corajosos e lutam pela glória". Durante um recuo em combate, soldados são fuzilados por oficiais dos "Batalhões Penais" do NKVD. Escrito nos anos 80, o livro "O Exército Soviético por dentro", do desertor soviético Viktor Suvorov(Vladimir Rezun), anticomunista convicto, nos diz que os tais batalhões eram lugares onde soldados transgressores de infrações penais atuavam em atividades pesadas como a limpeza de campos minados. Segundo estatísticas, 1,24% dos soldados soviéticos serviu em tais batalhões, um órgão que existia em praticamente todos os exércitos da época. Ao final da campanha, o tenente Abramovich lamenta por ter atirado em soldados alemães desarmados que se rendiam, apesar de ter estado numa guerra, onde homens matarem homens é algo comum. Há que ressaltar que após a rendição do Exército do Marechal von Paulos, em Stalingrado, centenas de milhares de alemães foram feitos prisioneiros, e não executados. Vale lembrar que estamos a falar de invasores fascistas movidos por um ideal de "superioridade racial", que não raramente achavam belo e hilário tirar fotos sorrindo ao lado de cadáveres de civis enforcados, mas no jogo da SEGA estes são "pobrezinhos nazistas".

The Birth of a Nation, o filme que ressuscitou o Ku Klux Klan, "era só um filme"
Numa leda tentativa de demonização de Stalin, uma das missões nos diz que "Stalin enviou centenas de milhares de soldados para morrer e impedir a tomada de Moscou", mas... o jogo não é de guerra? E em uma guerra, o que acontece? Será que nomes como Roosevelt, Churchill ou Hitler enviaram seus soldados para "viver" em uma guerra? Como os produtores do jogo imaginam uma guerra? Que soldados não soviéticos são todos como o agente 007, inatingíveis por grupos inteiros de soldados atirando com fuzil automático? Na descrição da missão temos uma suposta citação de Stalin que jamais fora confirmada por qualquer fonte creditável, segundo o qual "no Exército Soviético há mais coragem para recuar do que para avançar". No final da página encontramos uma das dicas para a missão, uma ordem de um oficial soviético: "Não tenha medo de sacrificar conscritos. A doutrina soviética considera as tropas dispensáveis em prol de objetivos estratégicos". É de se imaginar que durante a IIGM os recrutas alemães, americanos e ingleses usavam alguma espécie de equipamento invulnerável a tiros de fuzil, já que diferiam da "doutrina soviética".

Ilustração de Alexander Matrosov, infante de 19 anos que, sem ordens de seus superiores, cobriu um ninho de metralhadora com seu próprio corpo, possibilitando assim a passagem de seus camaradas, tornando-se assim uma lenda no Exército Soviético e inspiração para milhões de soldados

Mas não basta apresentar os soviéticos como "cruéis com seus soldados". Numa missão onde um oficial do NKVD comanda um grupo de soldados do Exército(o que seria o equivalente a um delegado da Polícia Federal comandar tropas brasileiras no Haiti), soldados que não tinham armas repentinamente recebem um lança-chamas, e para quê? Para incinerar casas e até igrejas, pasmem, com civis lá dentro! Com tanta maldade assim, é de se espantar que a população soviética inteira não tenha passado para o lado nazista. Em realidade, durante a tática da "terra arrasada", casas foram sim queimadas, represas como a do Dniepr foram dinamitadas, mas sem civis em seu interior, tendo a maioria destes sido evacuada. Isso foi feito para que os fascistas alemães não tivessem nada ao seu dispor ao penetrar no território soviético. Casos de populações incineradas aconteceram sim na Operação Barbarrossa, mas pelos nazistas, como em locais como Hatyn, na Bielorrússia, cuja população local foi incinerada viva numa igreja local pelos alemães, que se riam e se vangloriavam do feito. Um prelúdio do que aconteceria a Moscou, se os nazistas a tivessem tomado, segundo os desejos de Adolf Hitler. Populações civis foram exterminadas em locais como Babi Yar na Ucrânia e nos países Bálticos, onde iniciou-se a primeira matança em massa de judeus. Mas diante de protestos em seu fórum da SEGA, qual foi a resposta de um dos moderadores do grupo a tamanha inverdade? "Nós lamentamos se você não gostou do jogo, ele é historicamente autêntico", postado no dia 23 de julho de 2013. E o saco de maldades da "Rrrrrússia Sôviêtica" não para por aí, durante a missão o jogador recebe ordens do oficial do NKVD para incinerar soldados soviéticos(isso mesmo!) em campos de trigo e para dinamitar uma ponte pela qual passariam soldados que fugiam de tiros de tanques. Isso seria o bastante para que tal video game fosse proibido em qualquer parte do mundo, dada a sua completa falta de lógica e estímulo ao ódio. O que esperar agora da SEGA, jogos como "Tycoon: Campo de Aushwitz", onde o jogador executa prisioneiros soviéticos, judeus e ciganos? Afinal, seria apenas um jogo!


No video game canadense, o saco de maldades soviético não tem limites, nessa cena um soldado vermelho incinera um edifício cheio de civis lá dentro. Depois, soldados soviéticos também são incinerados em uma plantação

A partir da missão seguinte, a conversa do "tenente Abramovich" com "comunista perverso" prossegue, e o primeiro, que foi de Moscou a Berlim, seguidamente "lamenta pelos milhões mortos", pela "guerra sem nenhuma glória", tal como uma garotinha que não gostou de um conto de fadas infeliz. Mas se o Exército Soviético era tão "cruel e perverso", como eles ganharam a guerra? O tenente Abramovich, no jogo "historicamente fiel" da Relic, nos conta: "foi o general inverno"! General Inverno esse que, tal qual como uma entidade sobrenatural e superpoderosa, talvez um Lich Rei3 da vida real, foi capaz de lançar um frio tão impiedoso que afetou apenas as tropas alemãs! Nada de afetar militares e principalmente civis da URSS... Com um general tão poderoso ao seu lado, sabe-se lá por que o Exército Vermelho teria Marechais da União Soviética como Júkov, Yeremenko, Konyev, Rokossovskiy ou Vassilyevskiy. Mas quem sabe os trotskistas tem a explicação: burocracia stalinista!

62º Exército "Stalingrado", durante a libertação de Odessa, composto de homens e mulheres, todos armados com a lendária submetralhadora PPSh-41

Se tudo isso parece falsificação suficiente, a maldade do "Império do Mal" para por aí! Numa das missões temos acesso a uma citação do Marechal da União Soviética Aleksander Vassilyevskiy, segundo o qual este teria liderado homens "achando que estava fazendo seu dever patriótico, quando na realidade estava apenas sendo trapaceado". Em realidade, essa citação existiu, mas ela se refere aos tempos do oficial russo durante a Primeira Guerra Mundial, sob o Exército Imperial Russo, do tzar, não sobre o Exército Vermelho! Mas é claro que a maioria dos ocidentais não sabe que existiu uma enorme diferença entre o "Exército Imperial Russo" e "Exército Vermelho Operário-Camponês/Exército Soviético", talvez isso explique por que filmes americanos constantemente trazem oficiais russos com "r" exageradamente carregado usando barbas como a do tzar Nikolay II. De fato, durante toda a trama, ao contrário de britânicos e americanos, que lutam por seus aliados, ninguém do lado soviético "quer lutar por sua casa, pelo comunismo"(8 milhões de soviéticos combatentes eram membros do Partido Comunista), ninguém está preocupado com os nazistas terem movido uma guerra de extermínio contra uma população inteira, ninguém quer lutar por nada, apenas querem se lamentar por ter de combater fascistas. Com um enredo assim, por que não nomear logo o jogo como "Maricas no porão" em vez de "Companhia de heróis"? 

No real Exército Soviético, mesmo poupada dos combates armados, a primeiro-sargento Roza Shanina ausentou-se de sua guarnição militar para matar fascistas alemães com seu fuzil sniper Moisin-Nagant

E se Auschwitz é fichinha na frente das "barbaridades soviéticas", a Relic Entertainment retrata russos que eram ruins não apenas com sem próprio povo, mas também com seus "amigos". Uma das missões nos "ensina" que os soviéticos não se importavam com seus aliados poloneses. Em realidade, os soviéticos treinaram e armaram a resistência polonesa conhecida como Armiya Ludowa(Exército Popular). Cerca de meio milhão de soviéticos tombou para libertar a Polônia. Mas no jogo "historicamente verdadeiro", os soviéticos "ajudam" ao... Armiya Krajowa(Exército Nacional), que na realidade era coordenado a partir de Londres, não de Moscou! Numa das missões, uma polonesa traz um curioso prisioneiro "alemão" que usa uma insígnia do... ROA(em cirílico, POA), ou "Exército de Libertação Russo", um exército formado por desertores(cerca de 0,4% do Exército Vermelho) liderados pelo general Andriey Vlassov, o mais célebre desertor do Exército Vermelho que ao final da guerra seria condenado à forca em plena Praça Vermelha por sua traição. Durante todo o jogo, inclusive em Stalingrado, todos os "alemães" em realidade são "russos", uma vez que carregam o distintivo do ROA no braço. Assim, temos em realidade não uma guerra de "russos cruéis contra alemães afáveis", mas "russos cruéis contra russos não-cruéis e nazistas"! Será que os designers do jogo foram tão preguiçosos a ponto de evitar uma rápida pesquisa no Google sobre uniformes do Wermacht? Isso nosdá uma ideia do quão "historicamente fiel é o jogo". Aliás, mesmo os uniformes soviéticos são erroneamente apresentados, uma vez que utilizam em meados de 1941-42 um uniforme que só seria utilizado em 1943, característico por não golas e possuir galões nos ombros. Mas voltando aos "amigos", quando a polonesa católica "Ania" ajuda os soviéticos em troca de suprimentos, essa é "gentilmente presenteada" com um tiro de fuzil pelas costas. Uma cena depreciável, que causaria indignação e mesmo ódio justificado em qualquer cidadão honesto. E, mais uma vez, com uma expressão de bobo no rosto, o tenente Abramovich, o único "bom soviético" na trama inteira, questiona a ação, ao que o oficial do NKVD responde: "Esses poloneses são todos capitalistas e ladrões! Quando os alemães se retirarem, eles atacarão a nós". Mas que país atacaria a URSS quando sua indústria militar estava no ápice? De acordo com estatísticas e estudos de historiadores os soviéticos perderam 1.3 homens para 1 alemão. No Extremo Oriente, com uma força quase igual ao efetivo japonês, os soviéticos lograram destruir 83 mil fascistas japoneses perdendo cerca de 9 mil homens e capturaram mais de 640 mil japoneses, tendo apenas 24 mil dos seus capturados! Quem iria querer lutar contra um país que acabara de libertar seu país? Ryszard Kuklinskiy, espião da OTAN na Polônia Popular, em entrevista à publicação anticomunista Reader's Digest, em fins dos anos 90, afirmara que os poloneses(incluindo ele próprio, inicialmente) viram os soviéticos como libertadores. Aliás, estranho que enxergando "todos os poloneses como ladrões e capitalistas", os soviéticos tenham promovido um polonês ao posto máximo de suas forças armadas, em meio a um oceano de comandantes russos e ucranianos, o Marechal Konstantin Rokossovskiy, o mesmo que futuramente recusaria um pedido de Khruschov para "condenar Stalin", mesmo tendo nos tempos desse sido injustamente preso por suspeita de espionagem.

Stalin, para a maioria dos russos
É de se imaginar que num universo que envolve milhares de soldados como o Exército Vermelho, soviético, nem todos eram virtuosos, que alguns mesmo tenham cometido abusos, entretanto, por que o jogo mostra exclusivamente atos depreciáveis do Exército Vermelho e apenas deste exército? Por que será que Dresden, cuja população civil alemã foi implacavelmente bombardeada por ingleses e americanos, é esquecida no jogo? Por que será que as barbáries dos fascistas alemães são completamente omitidas, fazendo o jogador pensar que "a única maldade dos nazistas foi ter invadido a URSS"? Com tantas barbaridades dos vermelhos, não seria de se espantar que um jogador se tornasse um nazista convicto e levantasse o braço louvando Hitler ao término das missões. Mas essa é justamente a receita de Goebbels, "focar apenas nos aspectos negativos, esquecendo-se de todo o contexto". Não é de se espantar que hoje no mundo o número de neonazistas cresce tanto. Afinal, "se a verdade não existe, tudo é permitido" contra o comunismo, o grande mal encarnado, parafraseando o personagem Ivan Karamazov, da famosa obra de Dostoyevskiy, "Irmãos Karamazov". Há que esperar apenas um Smerdyakov disposto a pôr a "mão na massa".

De acordo com Quin Duffy, diretor de Company of heroes, o jogo é "historicamente balanceado", tão balanceado que nele não há atrocidades nazistas, não há nazistas queimando civis em Hatyn, nem mesmo fotos históricas de nazistas sorrindo em frente a civis enforcados, temos apenas "atrocidades soviéticas e soldados covardes", a despeito de tantos nomes como o comandante Gastello, cuja tripulação de seu bombardeiro, após gastar todas as bombas contra os alemães, atirou-se sobre um comboio alemão que passava sobre uma ponte, impedindo o avanço alemão por várias semanas. Nada sobre a heroica resistência da "Casa do sargento Pavlov", que por semanas resistiu a ataques nazistas vindos de todos os lados, sobre a resistência na Fortaleza de Brest ou sobre Maria Oktyabrskaya, que penhorou todos os bens que possuía para construir um carro de combate T-34, que seria pilotado por ela mesma até seu último momento de vida. Apenas crueldade, sadismo e desumanidade no jogo "historicamente balanceado". E se o jogo falta com a verdade histórica, seus designers não tiveram nenhum receio em faltar com a lógica. No último diálogo do filme, o "bom soviético Abramovich" nos diz que "toda a batalha por Berlim foi travada apenas em nome de uma fotografia". Nada sobre libertar o mundo do nazismo ou seu país... Será que os americanos também travaram Iwo Jima por uma mera "fotografia"? Exatamente por ter sido o "bom soviético" que lamenta por tudo o que foi a guerra, inclusive pela execução de soldados que salvaram sua vida, ele foi "condenado ao GULAG", até vir o seu carrasco. No momento de sua execução, escuta-se um tiro que não ceifara a vida do "bom soviético", em realidade o oficial do NKVD matara o seu carrasco, deixando-o fugir do GULAG, usando apenas um terno em pleno inverno russo na taiga da Sibéria(que chega a 40 graus negativos), carregando seu "livro de lamentações".

O Exército Vermelho soviético é motivo de orgulho para milhões de russos e outros povos, libertados da barbárie e da insanidade do nazi-fascismo. Sua vitória é celebrada todo ano no dia 9 de maio.

Company of heroes 2 não foi o primeiro video game a demonizar os russos. Antes dele, Call of Duty nos apresentou vários clichês de filmes como "O círculo de fogo"(originalmente Enemy at the gates), embora tenha exibido atos louváveis do Exército Vermelho como a captura do Reichstag, em Berlim. Call of Duty: Modern Warfare 1 e 2 vão mais longe, mostrando o sadismo de oficiais soviétis e uma cena onde um agente do FSB russo implacavelmente atira em civis, o que gerou protestos na Rússia e levou à proibição de suas vendas, após o projeto de um deputado da Duma. Hoje, Company of heroes 2 não apenas demoniza da pior forma possível os soviéticos, seguindo a receita do Dr. Goebbels, como também apaga postagens de russos que protestaram contra o filme, negando-lhes espaço em fóruns de discussão e rejeitando categoricamente qualquer oposição dos filhos e netos daqueles que nos anos 40 livraram o mundo da barbárie fascista. Os designers canadenses, que provavelmente aprenderam história apenas em "O círculo de fogo" ou com seus amiguinhos de Facebook, sem nenhum escrúpulo projetaram um jogo que indubitavelmente seria premiado por Hitler, talvez seus autores mesmo ganhassem uma Cruz de Ferro de Segunda Classe(afinal, faltou incluir cenas de soviéticos estuprando soviéticos) e o tirano alemão sentiria prazer em jogá-lo.

Três momentos de "alegria" em atrocidades contra civis(clique para ampliar)

Impulsos de histeria russofóbica são uma constante em filmes e jogos eletrônicos que retratam os soviéticos no mundo ocidental. Curiosamente, alguém que tenha experimentado jogos russos como o aclamado "Lock-on: Flamming Cliffs", um simulador de voo cujo enredo é um conflito entre a Rússia e a OTAN, fica pasmado com o fato desse não possuir cenas de caças anglo-americanos ou canadenses não bombardearem escolas cheias de crianças, como talvez ocorreria num game ocidental, ficaria ainda pasmado por não testemunhar cenas com helicópteros Apache americanos atirando em jornalistas, como ocorreu no Iraque e foi veiculado na rede mundial e jornais de todo o mundo. Jogos russos aclamados e mundialmente difundidos como "World of Tanks" também carecem de um retrato sádico de forças militares ocidentais.


Veteranos do Exército Soviético, dentre os quais um oficial de submarino(Marinha), ostentando suas medalhas, dentre as quais a Ordem da Guerra Patriótica, atribuída a militares por seus feitos heroicos, a Ordem de Lenin, o Distintivo da Guarda, dentre outros

Não foi em vão 14 mil russos assinaram uma petição online para proibir o jogo, além de protestos de outros internautas que incluem agora até brasileiros contra Company of Heroes 2, todos sumariamente ignorados por seus criadores, um video game que é um perfeito objeto de estudo para aqueles que querem entender o porquê do "boom neonazista" que o mundo experimenta e quem o fomenta. E não adianta citar historiadores soviéticos, jornalistas ocidentais que estiveram na URSS, especialistas militares que exaltam a coragem soviética ou mesmo o depoimento de uma criança que após acreditar no mito dos "soviéticos malvadões" escreveu ao presidente Yuriy Andropov, tendo sido convidada ao país para testemunhar a verdade sobre o "Império do mal". O fato é que fanáticos e sectários são dotados de raciocínio estreito, ignorante e intransigente, preferindo esconder a verdade e repetir suas mentiras até serem tidas por "verdade". Mesmo com a derrota do nazismo pelas tropas soviéticas e aliadas, os ensinamentos e práticas de tal ideologia nefasta continuam em vigor. O jogo, com seu nível patologicamente difamatório, evoca o que a citação abaixo há muito tempo defendia: "A brutalidade bestial com que o inimigo fomenta a guerra é a prova da enormidade do perigo que nos encara(...) Nosso povo estaria sujeito à intensa brutalidade de uma raça primitiva e perderia seus aspectos mais valiosos".4

O autor do artigo, em visita feita em respeito aos combatentes antifascistas da FEB, aliados dos soviéticos
1- Originalmente, o filme se chamava The Clansmen(Os homens do clã), obra prima do racismo antinegro americano, onde negros são mostrados como vadios e estupradores descontrolados, obcecados por mulheres brancas. No filme o arquivilão negro é interpretado por um ator americano branco pintado de preto, dada a proibição de atores negros tocarem mulheres brancas.
2- ANDREEV, E.M., et al., Naselenie Sovetskogo Soiuza, 1922-1991. Moscow, Nauka, 1993.
3- O Lich Rei é um personagem fictício do video game World of Warcraft(O mundo da poliorcética), um arquivilão que é um senhor dos mortos-vivos e do frio extremo, capaz de congelar seus inimigos sem que ele e seus aliados sejam afetados pelo clima gélido.
4- GOEBBELS, Paul J. “Die sogenannte russische Seele,” Das eherne Herz (Munich: Zentralverlag der NSDAP, 1943), pp. 398-405. Disponível em: http://www.calvin.edu/academic/cas/gpa/goeb11.htm


Fontes: 


- SUVOROV, Viktor. O Exército Soviético por dentro. Editora Record. 1982.
- ACADEMIA DE CIÊNCIAS DA U.R.S.S. A história da União Soviética: Época do socialismo (1917-1957). Tradução de João Alves dos Santos. Pgs. 577-578 Editorial Grijalbo, LTDA. São Paulo - 1960
- LAVRENTEVA, Polina. Russkie geymery massovo vystupayut protiv antirusskoy igry 1S. Em http://telegrafist.org/2013/08/01/75977/

Vídeo viral: Why Russians hate Company of heroes 2(ING)




Vídeo viral: Company of heroes, игры от нацистов(RUS)

8 comentários:

alexandre disse...

Bacana essa foto aqui em Curitiba. Pena que quando eu fiz o tour guiado no museu do expedicionário falaram mais do exército americano, pouco citando os heróis soviéticos.

Levy S. disse...

Fora a cutucada em Trotsky, que achei sem sentido o texto é muito bom!

Levy S. disse...

Fora a cutucada em Trotsky, que achei sem sentido o texto é muito bom!

rogerio disse...

quero um game para matar comunistas! adoraria um assim.

A Página Vermelha disse...

@rogerio

Nem se preocupe que o mercado está cheio deles! Antes sujeitos como você matando comunistas em games do que defendendo isso em blogs e jornais(ou fazendo na vida real).

Dmitry Vasilevsky disse...

Essa parte do jogo em se tem que incinerar casas com civis dentro, é pura mentira, eu o joguei , principalmente nessa parte. Na introdução mostra os civis sendo evacuados, mas todo o resto, como os soldados lutarem impulsionados pelo medo, mandados para apenas para morrer, matar soldados da resistência polonesa, mostrar os soviéticos como monstros sem remorso, etc, é exatamente o que ocorre na campanha desse jogo (citando outro exemplo, que enquanto se joga, na campanha ou não, é possível ouvir os soldados russos falando como o sistema soviético é opressor, dentro e fora da guerra) enfim, é um jogo para a lavagem cerebral mesmo

Pedagogia do Futuro disse...

Só há uma verdade: todo autor capitalista, seja escritor, deseiner, jornalista e etc., sempre fará distorções, e inversões de valores, pois eles são e sempre serão anticomunistas. Por isso jamais poderemos esperar nada deles, porque o que querem é manter seus privilégios, as custas da exploração de mão de obra, e de suas propagandas enganosas. Nenhum dono do capitalismo ou os beneficiados pelo mesmo falará a favor da União Soviética e de seu Exército Vermelho, justamente por serem uma proposta de vida de Bem Comum, contrária aos desmandos e corrupções deles.

israel disse...

não sou nem isso nem aquilo, mas a popular doutrina americana da eterna guerra fria, reina infelizmente. soldados fizeram sacrifícios pessoais, e em termos de país jamais haverá um país como a rússia que suportou todo o peso e furor das hordas nazistas, e graças a esses milhões de hérois e dos soldados e combatentes dos paises anti-nazi, que hoje somos livres.