quarta-feira, fevereiro 15, 2012

MULTIMÍDIA

Coletânea de filmes de propaganda anticomunista americanos - Parte I
Comentados por Cristiano Alves

Certamente, muitos que nasceram nos anos 80 ou antes tem vivas em suas memórias filmes como "Rambo", "Braddok" ou, em alguns casos, talvez mesmo "Red Dawn"(Crepúsculo vermelho, com Patrick Swayze), todos estes filmes tem uma coisa em comum, uma mensagem anticomunista, entretanto, essa mensagem se dirigia a "comunistas externos", sendo os vilões sempre militares comunistas soviéticos, vietnamitas, revolucionários comunistas de outros países, nunca "comunistas domésticos", isso por que já haviam sido exterminados em grande número em anos anteriores. Poucos sabem, entretanto, que durante o final dos anos 40 e início dos anos 50 desenvolveu-se uma forte histeria anticomunista, explícita, contra o "perigo vermelho interno".

Assistir aos filmes anticomunistas ajuda a entender como surgiu o mito do "comunista comedor de criacinhas", do "russo sádico e malvado", papel antes ocupado por índios e negros no cinema americano, eles demonstram como desde a infância o invidíduo sofre um verdadeiro bombardeio ideológico anticomunista, com napalm suficiente para queimar todos os neurônios capazes de empreender algum senso crítico. Importante se faz lembrar, que todos estes filmes contém uma mensagem a favor do militarismo americano, numa época em que as forças armadas americanas ainda não dispunham da mesma proporção que tem hoje, ajudando a entender o início e a ideologia que justificou sua corrida armamentista, bem como os interesses a que ela serve.

"Ele pode ser um comunista"(1951)
Filme de informação das Forças Armadas

Seguido de uma narração de Michael Parenti(ele próprio um ex-anticomunista, como se declara em suas obras), inicia-se o filme produzido pelas Forças Armadas dos Estados Unidos que ensinam a "reconhecer um comunista". A mensagem seguida neste filme até hoje em dia é seguida de forma ortodoxa por anticomunistas fanáticos, ela basicamente deixa a entender que a sociedade inteira deveria se mobilizar contra os comunistas, que mesmo com as filiações do Partido Comunistas dos Estados Unidos da América em declínio, era necessário proibir o partido comunista. A paranóia deste vídeo chega a um ponto tão abusivo e caricato, que até mesmo uma manifestação contra o Ku Klux Klan(KKK) é mostrado como "obra de comunistas silenciosos". Isto é, se o indivíduo se dizia contra espancamento, linchamento, enforcamento e perseguição aos negros, algum comum a qualquer indivíduo com um ponto de vista humanista, não necessariamente comunista ou socialista, pela ideologia americana, ele era um "comunista perigoso", não é difícil achar na rede mundial fotos de "conservadores" ianques com placas portando os seguintes dizeres "Miscigenação= Comunismo". Esse ponto de vista foi seguido à risca nos países da América Latina, sendo também seguido até os dias de hoje pelos neofacistas brasileiros, os autodenominados "conservadores", que tem como porta-voz mor nomes como o jornalista paulista Olavo de Carvalho.

Embora o vídeo ensine a "reconhecer um comunista", curiosamente, inexistiu qualquer filme ou propaganda no Leste Europeu, Cuba ou Ásia ensinando a "reconhecer um capitalista".


"Para reconhecer um comunista, a aparência física não quer dizer nada. Se ele clama ser um comunista, então levamos adiante a sua palavra.
Se uma pessoa lê e advoga as visões expressas em publicações comunistas, ele pode ser um comunista.
Se uma pessoa apóia todas as organizações que refletem ensinamentos comunistas ou organizações classificadas como comunistas pelo departamento de justiça, ela pode ser um comunista.
Se uma pessoa defende as atividades de nações comunistas, enquanto consistentemente ataca a política dos Estados Unidos, ela pode ser um comunista.
Mas se uma pessoa efetua todas essas coisas por um período de tempo, ela DEVE SER UM COMUNISTA!
Mas há outros comunistas que não mostram sua verdadeira face, que trabalham mais "silenciosamente".

O dia do trabalho traz uma onda de sentimento anticomunista em uma parada de lealdade. Todos levantam as suas inatas bandeiras contra os comunistas, as pessoas celebram a liberdade de todos os países."


Duck and cover(1951)
Filme de informação da Defesa Civil

Duck and cover("Agachar-se e cobrir") é uma das mais sublimes obras de estímulo à paranóia feitos nos Estados Unidos, feito em  formato de desenho animado, seu alvo é claro, o público infantil! Diferente de outros filmes da época, ele foi feito pela Defesa Civil americana. Sua propaganda anticomunista é indireta, mesmo por que, em se tratando de um filme voltado ao público infantil, ele não trata diretamente de "comunismo", mas sim de uma obra de paranóia anticomunista. "Agachar e cobrir" era uma prática extremamente difundida nas escolas americanas em fins dos anos 40 e nos anos 50.

No final da década de 40, iniciou-se na América uma operação cujo codinome era "Dropshot", aprovada pelo ditador Harry Truman, tratava-se de um plano cujo objetivo era lançar 300 bombas atômicas na União Soviética, provocando um verdadeiro holocausto soviético. Uma vez que em 1947 somente os EUA tinham a bomba atômica, essa guerra nuclear seria unilateral, sem retaliações. O uso de meios não convencionais era usual durante a ditadura sanguinária de Harry Truman, um dos exemplos foi o uso de cobaias humanas(não voluntárias) para testar remédios contra a sífilis. Todas essas cobaias, a propósito, eram não-americanas, eram gualtemaltecos, nos quais foram introduzidos a bactéria da sífilis. Esse crime foi, após 50 anos, oficialmente reconhecido pelo governo dos Estados Unidos em 2010. Em 1949, a situação mudou, sob o governo de Stalin, a União Soviética desenvolveu a bomba atômica, poupando o povo soviético de um holocausto nuclear e forçando os americanos a adiar o seu plano.

Planejando extirpar os soviéticos e comunistas da face da Terra, os americanos plantaram a lógica da inversão, o país que queria lançar 300 bombas atômicas na URSS, agora passava ao seu povo a imagem de que "os comunistas queriam iniciar a guerra nuclear". Para tornar essa idéia ainda mais palpável, proliferou-se nos EUA, país que sempre governou através da técnica da fobia, a indústria do "abrigo nuclear". Empresas ofereciam aos cidadãos de classe média "abrigos nucleares particulares", supostamente capazes de resistir por anos sem contato com o mundo externo. Nas escolas, essa histeria era ainda mais reforçada com "instruções de como proteger de uma guerra nuclear", numa dessas instruções, as crianças e adolescentes aprendiam que poderiam ter alguma chance de sobreviver a uma guerra nuclear protegendo-se de estilhaços e partículas arremessadas por ventos atômicos. Essa instrução é reforçada pelo filme infantil que mostra uma tartaruguinha protegendo-se de uma explosão nuclear, bem como por treinamentos feitos com sirenes, muitas vezes tocada repentinamente, para testar a prontidão das crianças americanas. Essa prática ridícula e vergonhosa jamais foi ensaiada em países do Leste Europeu, que viam-na como uma mera paranóia dos Estados Unidos, no qual tinha apenas um objetivo, plantar na população o medo do comunismo desde crianças.



O pesadêlo vermelho(1962)
Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América

Mesmo sob a égide do revisionismo, a União Soviética dava grandes saltos tecnológicos e expandia a sua influência pelo mundo, lançando o primeiro homem ao espaço em 1961, os Estados Unidos intensificavam ainda mais a sua paranóia, sob uma ditadura de fato militar que, procurando justificar ações imperialistas contra outros países, pintava sempre os EUA como "vítimas", através de uma ideologia transmitida por filmes do Departamento de Defesa, prática essa que nessas alturas já vinha sendo exportada para os países da América Latina, o "quintal" dos Estados Unidos.

Se nos primeiros filmes de faroeste, os americanos eram sempre pintados como "oprimidos pelos índios bárbaros e selvagens", que deveriam ser vingados pelo "valente cowboy justiceiro", essa imagem veio a ser revisada nos anos 60, de modo que os índios cederiam lugar para um outro "vilão opressor do povo americano", isto é, os comunistas, especificamente os soviéticos. "O Pedadêlo vermelho" é um filme que trata da derrubada do capitalismo nos EUA por tropas soviéticas. No início, dois comunistas conversam entre si, um militar e outro um militante do partido, um inicia a conversa em russo e o outrou pede-lhe que fale em inglês, pois será "a única liberdade que os americanos terão", um deles comenta que "os americanos tem muita liberdade". No decorrer do filme, um narrador descreve a cena vista, uma "cidade soviética", ela é cercada por muros, é cheia de ouriços e de arame farpado e tem postos de vigilância, um cenário bem parecido com as cidades americanas fronteiriças com o México nos dias atuais. Essa imagem, claramente inspirada em Berlim dos anos 40, é absolutamente descontextualizada, pois na ocasião Berlim estava ocupada por duas forças rivais, o filme pretende, entretanto, que toda cidade de "país comunista" é da mesma forma. Então surge no filme um narrador, que insere o telespectador em diferentes situações, numa delas, ele descreve o "cotidiano comunista", mostrando uma universidade onde os estudantes aprendem a fabricar explosivos e sabotar instalações americanas, a sabotagem que foi um dos mais comuns expedientes usados pelos imperialistas contra a União Soviética nos anos 30. Então, Jack Webb(o narrador), leva-nos a uma pequena e pacífica cidade norte-americana, onde tudo supostamente funciona bem, temos então os protagonistas, uma família americana de classe média alta, a esposa é uma mera dona de casa, numa época em que as mulheres nos EUA só podiam ser meras escravas domésticas, a filha do protagonista então traz para sua casa o seu namorado para um café da manhã, que é mal visto por seu pai, Jerry Donavan(Jack Kelly). Após uma dor de cabeça com o assunto, ele vai dormir, e o narrador novamente surge e fala de seu "pesadêlo", do "dia em que perdeu toda a liberdade que tinha". Ao acordar, a cidade onde vive foi "tomada pelos comunistas", seus antigos vizinhos e colegas agora o chamam por "camarada", ao que ele estranha. Ao chegar em casa, a situação lhe é ainda mais estranha, agora, seus filhos menores participam de uma organização de pioneiros, o que não lhe é tão chocante, até se deparar com uma situação que lhe é inaceitável, sua casa é invadida por comunistas uniformizados, militares que vieram buscar a sua filha, que antes não trabalhava, que agora era voluntária para trabalhar numa fazenda coletiva. Estes mostram-lhe, então, uma assinatura de próprio punho de sua filha onde ela se tornava voluntária, ao que Jerry contesta, até sua filha aparecer de malas feitas e confirmar a versão dos comunistas. Jerry, no dia seguinte, vai trabalhar numa fábrica, emprego que dificilmente lhe garantiria o padrão de vida mostrado no filme, lá ele tem uma quota de produção, que não consegue cumprir, sendo por isso advertido de que seria denunciado ao comissário local. Cotas de produção eram estabelecidas nos anos 30, quando se fazia urgente a industrialização do país para sair do atraso medieval também para preparar o país para a guerra antifascista, nos anos subsequentes elas também eram estabelecidas, porém não se tratava de metas irreais, aqueles que não produziam o número suficiente poderiam cumprir as metas depois. Jerry então chega em casa e se depara com os seus filhos indo para um acampamento de pioneiros, de malas feitas, então ele diz que nada disso mais acontecerá, pois eles "ainda são uma família"(pois ter uma filha trabalhando voluntariamente numa fazenda coletiva e seus filhos tendo instrução de teor humanista seriam o "fim de sua família"); por isso levará os filhos a uma escola dominical da igreja, arrastando os seus filhos até lá, deparando-se com uma placa indicativa de um museu, sobre o qual os seus filhos tentaram alertá-lo. Ao adentrar o local, depara-se com "invenções soviéticas", dentre os quais o telefone. O filme reflete claramente o desprezo que os americanos tem por outros inventores, seu nível é tão grotesco, que alega ser o telefone invenção do "americano Graham Bell", que nem mesmo era americano, mas escocês. Inconformado, Jerry alega ser tudo uma farsa e inicia a destruição do local, quebrando tudo o que pode até ser preso. O filme claramente faz uma apologia do vandalismo, posição seguida pelos neofascistas brasileiros, bastando lembrar que um blogueiro "conservador" fez um apelo para que as pessoas queimassem material escolar, material esse que, embora se trate de material nefasto e deseducativo, deveria ser combatido por outros meios.

No desfecho do filme, após ser preso, Jerry Donavan é levado a julgamento, onde é processado por "desvio" e tem seus crimes testemunhados por colegas de trabalho, vizinhos e sua própria esposa, sendo sentenciado à pena capital, uma pena geralmente destinada aos mais perigosos elementos da sociedade, envolvidos em atividades contrarrevolucionárias. Antes de sua execução, ele faz um discurso, até que no momento do disparo, ele acorda e diz "como ama o livre mundo onde vive", após o narrador retornar e fazer todo um discurso sobre o capitalismo, para o qual usa o eufemismo "liberdade".

"The red nightmare" foi distribuído em escolas secundaristas e universidades, ele aproveitou um vácuo deixado por filmes como "On the beach"(1959) e outros de sua época sobre a guerra nuclear, agora era preciso mostrar "quem ameaçava os EUA com a guerra nuclear" e o capitalismo, ou melhor, a "liberdade" americana, segundo seus dizeres. Filmado pela Warner Bros, seus produtores alegam ter se inspirado em estórias contadas por "emigrados" da Europa Oriental. Um comentário de um não comunista, no Youtube, expressa bem a natureza desse filme: "Essa porcaria é tão falsa, que eu vim de um país comunista e não era assim... as condições de vida eram duras, mas não como nessa porcaria de filme... e no trabalho as pessoas apenas fumavam, não davam a mínima para cotas..."



Red Dawn(1984)

Pérola da era Reagan, quando foram produzidos os maiores "clássicos" cinematográficos holywoodianos do anticomunismo, contando com futuras estrelas como Patrick Swayze e Charlie Sheen. O filme retoma o mesmo enredo que antes era utilizada contra os índios, isto é, os americanos como "vítimas" de um invasor imperialista, isto é, projeta-se no expectador a idéia de que a América é um país pacífico, que não incomoda a ninguém, porém está sempre sendo atordoada por invasores. Filmes como esse ganharam uma importância tremenda nos EUA de Reagan para justificar o famoso programa "Guerra nas Estrelas" e uma nova corrida armamentista.

Red Dawn, isto é, "Alvorada Vermelha," trata de uma história fictícia, um filme de propaganda sem cara de propaganda, como os clássicos que o antecederam, aqui não há um "narrador", porém ele segue o mesmo estilo trash, tosco, grotesco e ilógico. Logo no início, os Estados Unidos são invadidos pela União Soviética, para ser mais exato, por uma tropa de elite, a VDV(a força paraquedista), quem em plenos anos 80 já usava uniforme camuflado, seguindo o velho clichê de filmes americanos de que "o negão sempre morre primeiro", os desantniki(isto é, paraquedistas soviéticos) cercam uma escola americana, quando o seu diretor afroamericano vem falar com os militares que o cercam, sendo imediatamente fuzilado. Repentinamente, então, os paraquedistas iniciam uma chacina contra estudantes americanos indefesos, inclusive utilizando armas como o RPG(mundialmente famoso lança-rojões soviético) contra civis desarmados, e metralhadoras como o RPD, tudo isso contra... adolescentes secundaristas desarmados! Nessa cena, o filme deixa bem claro o seu público alvo, os adolescentes, que devem ver os soviéticos como assassinos sedentos de sangue, prontos a cometer massacres por mero prazer, prontos a cometer atos que os militares dos Estados Unidos cometiam no Vietnã, como comunistas que viam na matança um divertimento, tal como o General James Mattis, que declarou expressamente durante a Guerra do Iraque da década de 2000 que achava "divertido matar".

No decorrer do filme, a resistência ao Exército Soviético é exercida por adolescentes americanos que se autointitulam os "Wolverines"("lupinos"), que lutam com toda a garra, coragem e heroísmo contra soldados que quase nunca acertam o alvo e são facilmente surpreendidos por garotos, que roubam os seus uniformes comunistas. Os Estados Unidos também são invadidos por tropas cubanas no filme, que ocupam o país, até este ser libertado pelos adolescentes americanos, que expulsam os soviéticos e cubanos com suas táticas de guerrilhas. A mensagem do filme é clara, os jovens devem odiar profundamente e fanaticamente os comunistas, pois estes estão sempre dispostos a matá-los e querem invadí-los a qualquer custo.



Rambo II(1985)

Originalmente, o primeiro Rambo tratava de um soldado(Sylvester Stallone) que se tornara neurótico de guerra após a guerra do Vietnã e passou a enfrentar as autoridades americanas, inclusive a polícia, sendo enviado para um campo de trbalho nos Estados Unidos. No segundo filme, entretanto, a história é completamente distinta.

Escrito por nomes como James Cameron(o mesmo de Avatar), e estrelado por Sylvester Stallone, Rambo baseava-se nas alegações do dissidente soviético neofascista Aleksander Soljenítsin, conforme bem denunciado pelo jornalista sueco Mário Souza. Essas estórias foram a inspiração para o filme, onde o "valente soldado Rambo" tinha a missão de resgatar pilotos americanos brutalmente torturados por soviéticos e vietnamitas, sem entrar em combate com eles. O filme tinha por objetivo servir como anestesia para a direita americana, frustrada com a derrota no Vietnã, nele o militar americano acaba sendo enganado pela CIA, arquiteta do plano, sendo deixado sozinho e abandonado no Vietnã, onde é capturado, torturado por soviéticos, porém acaba tornando-se mais forte com a tortura sofrida e sozinho combate "somente" a Spetsnaz, isto é, os mais qualificados militares do Exército Soviético. Sozinho Rambo derrota o Exércitos Soviéticos e o Exército Popular do Vietnã, não importa se é um helicóptero Mi-24, uma lancha, tanque ou uma bomba de alto poder explosivo, nada disso é capaz de matá-lo, seu corpo fechado não é atingido por um só tiro fatal de um pelotão de soldados de elite.

No filme, foram gastos mais de 27 milhões de dólares, apesar disso, o filme foi mal recebido até mesmo pela crítica americana, sendo considerado o pior filme do ano pela Golden Raspberry Awards. Stallone foi considerado o pior ator do ano, assim como sua atriz coadjuvante, sua fotografia foi considerada a pior, assim como seu roteiro e trilha sonora. Apesar do quê, o filme rendeu 150 milhões de dólares na América do Norte, sendo um sucesso de bilheteria. Foi extremamente exibido na Rede Globo no início dos anos 90 na "Sessão da Tarde".



Rambo III(1988)

Rambo III, com Sylvester Stallone, é um filme que foi feito com o propósito de transmitir a idéia de "derrota soviética no Afeganistão", assim como Rambo II falava na derrota vietnamita-soviética no Vietnã. Foi um sucesso de bilheteria, inclusive dando origem ao desenho animado da série, assim como ao video game do filme.

Continuação da história anterior, Rambo agora está na Tailândia, junto a budistas, buscando paz espiritual, inclusive em lutas de aposta. Quando o seu amigo, o Coronel Trautman, é enviado para o Afeganistão(o filme não deixa claro o que ele foi fazer lá), ele tem o "privilégio" de ser o primeiro americano capturado no Afeganistão, levando Rambo a infiltrar-se no país, juntar-se aos mujaheedin e, sozinho, com munição infinita de fuzis Kalashnikov capturados, derrotar tropas soviéticas no Afeganistão. No filme, pode-se aprender que não é necessário recarregar um fuzil, que homens a cavalo podem derrotar facilmente tanques e helicópteros cheios de casulos de foguetes e mísseis, que helicópteros atacam veículos terrestres com vôos rasantes "raspando poeira do chão" e que um tanque, após ser parcialmente destruído por um coquetel Molotov, receber tiros de canhão de helicóptero e se chocar com um Mi-24 carregado de mísseis e casulos cheios de foguetes, pode sair intacto. De fato, Rambo III não é apenas uma propaganda anticomunista, como também um excelente marketing da tecnologia militar soviética! Tão tosco é o filme, que nele, em pleno calor matinal afegão, é possível ver militares soviéticos usando uniformes de inverno, as telogreikas, agasalhos usados pelo Exército Vermelho, além de... shapki(shapka é a denominação dada aos gorros de pele usados no inverno russos, que cobre a cabeça e pode cobrir as orelhas quando desamarrado). A julgar pelos shapki negros, com seus uniformes camuflados, o filme mostra claramente fuzileiros navais soviéticos num país sem acesso ao mar. No real Afeganistão, soldados soviéticos usavam uniformes comuns e chapéus(afganki), em muitas ocasiões usavam apenas as suas camisetas de listras azul-celeste, com ou sem manga, a telnyashka, "marca registrada" dos paraquedistas soviéticos.

Rambo parte da premissa de que os soviéticos foram os invasores do Afeganistão, posição que ignora que o governo da República Democrática do Afeganistão, legitimamente eleito pelo seu povo, solicitou a ajuda soviética contra insurretos afegãos que não aceitavam o fim da monarquia e queriam implantar no país um regime fundamentalista. Esses mujahedeen acreditavam num Afeganistão medieval e machista, eram reacionários que visavam um fascismo islâmico, abominavam que o governo socialista introduzisse escolas para homens e mulheres, hospitais para ambos os sexos, que mulheres pudessem andar sem a busca e fossem alfabetizadas por técnicos afegãos e soviéticos, além de ter promovido um dos piores pesadêlos de latifundiários e capitalistas - a reforma agrária. Conforme admitido pelo próprio Zbigniew Brzezinski em entrevista, os Estados Unidos começaram a intervir no Afeganistão antes da intervenção soviética, desde antes da guerra a CIA treinou islâmicos em técnicas de sabotagem, terrorismo e táticas de guerrilha. Quando o Exército Soviético entrou no Afeganistão, a pedido do governo local, para conter as guerrilhas mujaheedin, os EUA, através da CIA, intensificou seu apoio aos terroristas, que contaram também com o apoio da Arábia Saudita, Paquistão(por sua afinidade islâmica e rivalidade com a Índia, apoiada pelos soviéticos), República Popular da China, Israel, Canadá, Reino Unido, e, segundo algumas fontes, inclusive a Líbia! Todos estes países patrocinaram forças fundamentalistas e anticomunistas, que Rambo III chama de "lutadores da liberdade". O filme também acusa o Exército Soviético de usar armas proibidas contra o povo afegão, incluso armas químicas, versão jamais constada por qualquer equipe investigativa soviética, independente ou americana, exceto em alguns casos, em cavernas contra forças insurgentes, mas não contra civis, como os americanos fizeram no Vietnã. É interessante enfatizar, que embora Rambo traga cenas fictícias de tortura de afegãos e americanos, essas cenas nem de longe se assemelham com os horríficos crimes cometidos na prisão americana de Guantánamo, na ilha de Cuba. O filme também não deixa claro que os americanos armaram os mujaheedin com mísseis terra-ar Stinger, embora um coronel soviético interrogue o coronel americano Trautman sobre o assunto várias vezes. A entrega desses mísseis já foi admitida por autoridades americanas em várias oportunidades nos dias atuais.

Rambo transmite a velha idéia de que "russos são comunistas malvados, sádicos que matam pessoas por diversão", os grandes heróis do filme são os fanáticos mujaheedin, filme que é dedicado ao "bravo povo do Afeganistão", que os americanos combatem nos dias atuais e classificam como "terroristas que querem implantar uma ditadura islâmica". O filme, feito um ano antes da retirada soviética, transmite a idéia de derrota comunista, ignorando que a maioria das mortes soviéticas no Afeganistão se deveu a adversidades como o clima, doenças como o tifo, hepatite e outras infecções que, em razão do clima afegão,e as adversidades do local, espalhava-se facilmente pelas tropas. Não há como negar que muitas vitórias dos fundamentalistas foram obtidas em ações como emboscadas, especialmente em vias estreitas, contra comboios soviéticos, nos locais menos esperados, porém o saldo é que enquanto os soviéticos perderam entre 10 e 20 mil homens, as forças mujaheedin, que incluíam tropas estrangeiras lutando sob a bandeira islâmica, pederam entre 600 mil e 2 milhões de homens, só em operações como a "Magistral", um surpreente ocorrido teve lugar na cota 3234, protagonizada pela 9º Companhia, formada por paraquedistas da VDV. Lá, um pelotão formado por apenas 39 militares comunistas conseguiu deter uma força paquistanesa de 200 a 250 homens. Ao passo que os comunistas tiveram um saldo de 6 mortos e 28 feridos, os terroristas perderam entre 100 e 150 homens, todos mortos em combate. Apesar do teor do combate, entre forças inimigas de interesses irreconciliáveis, inexiste qualquer foto de tropas soviéticas urinando em cadáveres de afegãos ou com bandeiras da SS nazista, episódios protagonizados e fotografados(como troféis) por tropas americanas.

A retirada soviética do Afeganistão, longe de poder ser considerada uma "derrota", foi parte de uma mudança na política externa soviética, de modo que o país retirou tropas da Mongólia, onde tinham uma situação bastante confortável e bem mais favorável que as tropas do Afeganistão, também desaconselhou as ações do Vietnã contra a Kampuchéia, solicitou a Cuba a retirada da ajuda à Angola e aos poucos iniciou a retirada de tropas da Europa Oriental, onde não tinham conflito com forças locais, o Afeganistão foi apenas uma mudança de planos, valendo frisar que mesmo com a retirada soviética, o poder popular no país perdurou até meados da década de 90, até ser derrubado pelo talibã que iniciou o regime que muitos hoje conhecem, versado na mais brutal ditadura terrorista de cunho islâmico. Deste modo, o Afeganistão jamais pode ser tido por "Vietnã soviético", como clamado no filme Rambo e inconscientemente repetido por muitos.

Pode-se dizer que o início da década de 2000 "matou Rambo", quando os americanos invadiram o Afeganistão e a população doutrinada com o filme passou a enxergar como funciona o duplo estandarte da política externa americana, hoje olhando com desdém os falsos "lutadores da liberdade". A respeito da versão ocidental sobre a operação antiterrorista no Afeganistão, promovida pela União Soviética, há que recordar as palavras de um oficial do Exército Vermelho, após a retirada soviética: "a idiotia não tem encontra limites".

4 comentários:

A Página Vermelha disse...

Em tempo: atualmente, os estúdios americanos estão trabalhando num remake de "Red Dawn", todavia, ao invés dos soviéticos, deste vez os vilões são os norte-coreanos, que invadirão os Estados Unidos.

Este filme será mencionado na segunda parte desse artigo, a ser publicada ainda, sendo a prova viva de que constitui um mito a afirmativa de que "a guerra fria já acabou".

Leon K. Nunes disse...

Convém lembrar do filme Soldado Vermelho (posso não estar certo do nome), com James Belushi e Arnold Schwarzenegger. Os dois atores representam agentes americano (Belushi) e soviético (Schwarzenegger), a combaterem inimigos da máfia. Apesar de EUA e URSS atuarem juntos no filme, a crítica aos soviéticos é sutil quando mostra sempre mo agente soviético como um sujeito frio, calculista, robotizado e carrancudo. É um filme que demonstra quebrar qualquer empatia pelo sovietismo mesmo numa obra de puro entretenimento.

Anônimo disse...

Cadê a segunda parte?

Anônimo disse...

Os filmes do Rambo são os mais falsos e ridiculos do mundo.
Pois na realidade os soldados americanos cagavam de medo dos Vietcongs e preferiam fugir,se esconder ou matar seus proprios generais para não lutar do que lutar pelo seu tão "justo","heroico" e "amado" pais.