terça-feira, abril 14, 2026

Como o neopentecostalismo se tornou um fator decisivo na política e um pilar do sionismo no Brasil e na América Latina?

Ivan, um jovem russo, voou para o Rio de Janeiro e conheceu a simpática brasileira Sara em um aplicativo de namoro; a latina mal podia esperar para convidá-lo para um encontro naquela mesma noite e até prometeu a ele algo que ele nem “poderia imaginar”! A autoestima de Ivan disparou na esperança de uma “noite de carnaval” com a garota; no entanto, ela o levou a um lugar estranho – uma garagem onde acontecia algo parecido com um ritual religioso: um homem de terno gritava alto, as pessoas caíam no chão e diziam palavras estranhas e incompreensíveis para todos. Ivan não sabia que a garota o havia astutamente atraído para um templo neopentecostal.

A jovem brasileira Adriana conheceu o argentino José. Alto e atlético, o rapaz falava alto e se comunicava razoavelmente bem em seu idioma, o português, o que a surpreendeu, já que ela mesma falava péssimo espanhol. Após uma longa caminhada e um lanche de alfajores (nota do editor. esp. Alfajores — sobremesa popular na América do Sul, composta por dois biscoitos redondos de massa quebradiça unidos por recheio de leite condensado), o homem começou a contar como gostava de uma música sobre o político de extrema direita Bolsonaro, por sinal, uma música extremamente medíocre! O homem contou à moça que considera Milei o melhor presidente da Argentina, que gosta de Trump e até mesmo de Netanyahu. Esse homem se descreveu como “evangélico”, como costumam se apresentar os neopentecostais. Mas quem são essas pessoas? O que une a brasileira Adriana e o russo Ivan?


“Sem dúvida, os evangélicos (ou seja, os neopentecostais) se tornaram uma força política decisiva”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e professor dos programas de mestrado e doutorado na área de “População, Território e Estatística Pública” da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Brasil. Nas eleições de 2018, Jair Bolsonaro (então com 62 anos) foi eleito presidente do Brasil, governando o país até 2022. Embora afirme ser católico, em 12 de maio de 2016 Bolsonaro foi “batizado” nas águas do Jordão (onde, segundo a Bíblia, Jesus foi batizado). A cerimônia de batismo (teologicamente falando, na realidade um banho) foi conduzida pelo pastor Everaldo, presidente do Partido Social Cristão. Sem dúvida, as raízes pentecostais da família remontam à ex-primeira-dama, Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro (na época com 38 anos) — terceira esposa de Bolsonaro —, que frequenta regularmente igrejas desse tipo acompanhada pelo marido.


O neopentecostalismo é um fenômeno religioso estranho para a maioria dos russos, sobre o qual nem mesmo politólogos experientes e teólogos ortodoxos têm conhecimento. Ele surgiu na década de 1970 e se espalhou rapidamente, sobretudo nos países da América Latina. Em sua base está a chamada “teologia da prosperidade”, com ênfase na “guerra espiritual” contra os demônios e um afastamento notável das normas cristãs tradicionais e das concepções de moralidade. Práticas características — “falar em línguas”, promessas de curas milagrosas, rituais de expulsão de demônios e exorcismo — são apresentadas não apenas como manifestações de fé, mas também como um poderoso instrumento de influência sobre as pessoas.

Ao contrário da Igreja Católica Romana tradicional no Brasil, onde a Teologia da Libertação exerceu influência notável, com ênfase na justiça social e na ajuda aos pobres, a “teologia da prosperidade” propõe uma abordagem diretamente oposta. Aqui, afirma-se que a fé, reforçada por contribuições financeiras (dízimos e doações), supostamente garante ao indivíduo bem-estar material, saúde e sucesso na vida.

É fácil reconhecer uma igreja neopentecostal no Brasil e em outros países da América Latina. Geralmente é barulhenta, e seus fiéis gritam alto durante o “culto” (como chamam sua cerimônia religiosa). Às vezes, essas seitas e igrejas organizam caravanas com caminhões e aparelhos de som, nas quais, mesmo nos finais de semana, tarde da noite, os pastores pregam perto de bairros residenciais, o que muitas vezes irrita os moradores locais. O autor do artigo observou pessoalmente um pregador falando em voz alta no centro de São Paulo (Brasil) — em… espanhol. Aparentemente, não lhe explicaram que ele estava na cidade de São Paulo, e não em Santiago.

Foi justamente na cidade de São Paulo, na avenida mais famosa da cidade — a Avenida Paulista —, em 2024, que um grupo de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro se manifestou contra a prisão desse político, vestindo camisetas da seleção brasileira de futebol e bandeiras de Israel. Quando o conhecido blogueiro Fernando Tiete perguntou a uma mulher por que ela tinha uma bandeira de Israel no braço, a mulher respondeu furiosamente que «Israel é um país cristão» e que «Israel nos representa, pois não somos socialistas nem comunistas, por isso Israel está conosco».

Em várias cidades do Brasil, seja antes ou depois da chamada "grande parada gay"*, acontece a “Marcha por Jesus”, frequentemente sob a bandeira do Estado de Israel. O conhecido jornalista e ativista dos direitos humanos Breno Altman, judeu brasileiro, condenou a aliança entre pentecostais e sionistas no Brasil.

O neopentecostalismo é um fenômeno religioso estranho para a maioria dos russos, sobre o qual nem mesmo politólogos experientes e teólogos ortodoxos têm conhecimento. Ele surgiu na década de 1970 e se espalhou rapidamente, sobretudo nos países da América Latina. Em sua base está a chamada “teologia da prosperidade”, com ênfase na “guerra espiritual” contra os demônios e um afastamento notável das normas cristãs tradicionais e das concepções de moralidade. Práticas características — “falar em línguas”, promessas de curas milagrosas, rituais de expulsão de espíritos e exorcismo — são apresentadas não apenas como manifestações de fé, mas também como um poderoso instrumento de influência sobre as pessoas.

Ao contrário da Igreja Católica Romana tradicional no Brasil, onde a Teologia da Libertação exerceu influência notável, com ênfase na justiça social e na ajuda aos pobres, a “teologia da prosperidade” propõe uma abordagem diretamente oposta. Aqui, afirma-se que a fé, reforçada por contribuições financeiras (dízimos e doações), supostamente garante ao indivíduo bem-estar material, saúde e sucesso na vida.

É fácil reconhecer uma igreja neopentecostal no Brasil e em outros países da América Latina. Geralmente é barulhenta, e seus fiéis gritam alto durante o “culto” (como chamam sua cerimônia religiosa). Às vezes, essas seitas e igrejas organizam caravanas com caminhões e aparelhos de som, nas quais, mesmo nos finais de semana, tarde da noite, os pastores pregam perto de bairros residenciais, o que muitas vezes irrita os moradores locais. O autor do artigo observou pessoalmente um pregador falando em voz alta no centro de São Paulo (Brasil) — em… espanhol. Aparentemente, não lhe explicaram que ele estava na cidade de São Paulo, e não em Santiago.

Foi justamente na cidade de São Paulo, na avenida mais famosa da cidade — a Avenida Paulista —, em 2024, que um grupo de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro se manifestou contra a prisão desse político, vestindo camisetas da seleção brasileira de futebol e bandeiras de Israel. Quando o conhecido blogueiro Fernando Tiete perguntou a uma mulher por que ela tinha uma bandeira de Israel no braço, a mulher respondeu furiosamente que «Israel é um país cristão» e que «Israel nos representa, pois não somos socialistas nem comunistas, por isso Israel está conosco».

Em várias cidades do Brasil, seja antes ou depois da parada gay*, acontece a “Marcha por Jesus”, frequentemente sob a bandeira do Estado de Israel. O conhecido jornalista e ativista dos Direitos Humanos Breno Altman, judeu brasileiro, condenou a aliança entre pentecostais e sionistas no Brasil.

Mas como essa aliança se formou? As práticas religiosas ligadas a Israel entre os neopentecostais brasileiros não surgiram por si só e certamente não são uma continuação “natural” da tradição cristã. Tudo começou com a importação de ideias do Norte — dos EUA; no século passado, o Brasil tornou-se um dos principais campos de expansão do evangelismo americano. Junto com os missionários, as pregações na TV e a literatura religiosa, chegou ao país a já consolidada concepção evangélica do “sionismo cristão” — a ideia de que Israel ocupa um lugar central no plano divino e que apoiá-lo é uma espécie de dever religioso. Histórias sobre a terra, a vitória, a riqueza e o caráter de povo escolhido foram facilmente traduzidas para o contexto contemporâneo: Deus ajudou Israel — logo, ajudará você também. Assim começou a gradual adoção de símbolos e imagens associados ao antigo Israel.

Com o tempo, isso ultrapassou os limites dos sermões e tornou-se parte da prática ritual: nas igrejas surgem estrelas de Davi, utilizam-se shofares, realizam-se “campanhas de Israel” e reproduzem-se cenas do Antigo Testamento. A teologia da prosperidade, que está na base do neopentecostalismo, também desempenha um papel importante. Nesse contexto, Israel é interpretado como uma prova tangível de que Deus realmente “abençoa” seus eleitos. O apoio a Israel começa a ser apresentado como uma forma de entrar nessa lógica de bênção: se você está do lado certo, sua vida também será bem-sucedida.

Essa aliança favorece Israel — o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu citou abertamente os evangélicos de um dos principais aliados do país. E isso não é cortesia diplomática, mas o reconhecimento mais genuíno de um recurso político que realmente existe. Um dos exemplos mais evidentes são as mobilizações em massa em apoio a Israel, e aqui já não se trata de gestos simbólicos, mas de dezenas de milhares de pessoas levadas às ruas. Em Manaus, ocorreu uma manifestação com cerca de 40 mil participantes, organizada pelo líder religioso René Terra Nova, onde os participantes “oraram por Israel e expressaram apoio ao Estado judeu” na luta contra a Palestina.

Os fiéis pentecostais são um povo peculiar. Apesar do clima da Brasil, costumam se vestir com roupas quentes; as moças podem usar tranquilamente saias jeans longas, já que não lhes é permitido usar calças. As moças, via de regra, têm cabelos muito longos, o que se baseia na interpretação literal de 1 Coríntios 11:14-15, onde cabelos longos são associados à honra, à modéstia e às diferenças de gênero. Isso é visto como um sinal de submissão a Deus e de separação do mundo. Os seguidores desse movimento também costumam evitar clubes noturnos, carnavais e até mesmo as tradicionais festas de junho.

E, no entanto, não é raro que os pregadores de algumas denominações sejam ex-viciados em drogas, criminosos ou acompanhantes (algumas denominações aceitam mulheres como pastoras). Apesar de os pastores frequentemente condenarem em voz alta o homossexualismo nas “seitas”, não são raros os escândalos relacionados a adultério entre os fiéis e até mesmo entre os pastores. Os pregadores dessas seitas costumam usar trajes formais mesmo a +40 °C e muitas vezes almejam uma carreira política. No Brasil, chegou-se a formar uma verdadeira “bancada evangélica” no parlamento nacional.

Em suas “batalhas religiosas”, os pentecostais costumavam condenar duramente os católicos como “idólatras” e “adoradores de Maria”. Eles se opõem ao uso do crucifixo: “Meu Deus não foi criado para ficar pendurado no pescoço de homossexuais”, disse o famoso pastor e deputado Marcus Feliciano. O episódio mais preocupante foi quando o “bispo” da Igreja Mundial do Reino de Deus chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida (a aparição de Maria negra no Brasil ocorreu muitos anos antes do surgimento da Netflix e essa imagem é a principal representação da Virgem Maria no catolicismo brasileiro) ao vivo, chamando-a de “boneco desgraçado”.

Após as notícias sobre esse episódio, ocorreram por um breve período confrontos entre fiéis nas ruas do Brasil. Os adeptos das religiões neopagãs do Brasil frequentemente reclamam que os pentecostais destroem seus templos e os acusam de praticar magia negra. Católicos e outros cristãos costumam dizer que os pentecostais falam mais sobre demônios do que sobre o próprio Deus, pois, por meio do medo, é mais fácil arrecadar o dízimo e as doações dos fiéis.

Os “cultos” das seitas neopentecostais não têm nada a ver nem com o catolicismo, nem com a ortodoxia, nem com o protestantismo tradicional (luteranismo ou anglicanismo). Em geral, eles se baseiam em espetáculos criados nos EUA para a televisão. Algumas dessas cerimônias chegaram até a se tornar memes na internet, como a do “Pastor Ryu”, que, tal como um lutador do videogame “Street Fighter”, levanta o braço e derruba uma multidão inteira de homens fisicamente saudáveis. Mas talvez o “clássico” desse gênero seja o famoso “Pastor Metralhadora” — um trecho do culto pentecostal em que o pastor supostamente “atira” nos fiéis com a glória de Deus. O pastor não apenas imita o som de uma metralhadora com a boca, mas também o som de “resfriamento” da metralhadora, enquanto os fiéis pulam de alegria como em um show de rock. O vídeo no YouTube recebeu mais de um milhão de visualizações. Nos comentários, as pessoas veem isso como uma brincadeira, mas escrevem que seus parentes religiosos levaram o “Pastor Metralhadora” a sério. Nos “cultos” pentecostais, frequentemente ocorrem rituais de expulsão de demônios, geralmente envolvendo pessoas comuns (por alguma razão, entre os possuídos não há pessoas ricas ou milionárias).

Sem sua própria Roma ou Meca, os pentecostais frequentemente veem os EUA como o “país mais protestante”. Os fiéis acreditam que os EUA são um país poderoso e influente porque seguem os ensinamentos do pentecostalismo e do protestantismo, em prol do “cristianismo correto”. Os fiéis desse movimento costumam se apresentar simplesmente como “cristãos” ou apenas “protestantes”. Na ausência de uma língua canônica, como o eslavônico eclesiástico na Igreja Ortodoxa Russa ou o latim na Igreja Católica Romana, os pregadores pentecostais frequentemente “inventam línguas” no estilo “sharabacamba pipá”, nas suas palavras – “a língua dos anjos”. Isso, no entanto, não invalida o fato de que muitos pentecostais se dedicam ao estudo de línguas estrangeiras, considerando-as um instrumento poderoso e útil para a evangelização — da mesma forma que a ioga serve como instrumento de difusão da religião hinduísta.

No que diz respeito à fé, os pentecostais e neopentecostais, ao contrário das vertentes tradicionais do cristianismo (incluindo o luteranismo), rejeitam categoricamente os santos, assim como o sacramento do batismo. Às vezes, fiéis abastados recorrem a ritos simbólicos, como o banho: assim, Jair Bolsonaro, antes das eleições, realizou um banho no rio Jordão na presença do pastor Everaldo, líder do Partido Social-Cristão. Maria não é considerada a Mãe de Deus. Ao contrário da Igreja Ortodoxa Russa, na qual padres e monges devem obrigatoriamente estudar em seminários, no pentecostalismo não existem instituições de ensino desse tipo. Alguns pastores nem sequer possuem formação teológica e, muitas vezes, são semi-analfabetos.

Mas tudo isso são características externas dessa religião; qual é, então, o seu papel na vida política, social e econômica da população dos países da América Latina? O pentecostalismo e o neopentecostalismo representam o segmento religioso que mais cresce no Brasil, liderando em termos de ritmo de crescimento do número de instituições religiosas no país. De acordo com dados do Censo de 2022 (publicados em 2025), o número de evangélicos no Brasil atingiu 26,9% da população, o que representa um crescimento significativo em comparação com os 21,7% registrados em 2010. Isso significa mais pessoas do lado do Estado de Israel (e, na verdade, contra o Irã), assim como mais apoiadores da extrema direita e do liberalismo econômico, como o argentino “José”, citado no início deste artigo. Esse segmento frequentemente desempenha um papel importante, não somente como “trolls pró-Israel” nas redes sociais, mas também como “bots” para defender políticos da extrema direita e para a propaganda ativa do anticomunismo.

O conhecido pastor, blogueiro e líder da Assembleia de Deus Silas Malafaya (não confundir com Malofeev) é um anticomunista ferrenho, que afirmou repetidamente que «os verdadeiros cristãos não votam em comunistas», pois, segundo ele, “os comunistas mataram 1 milhão no Vietnã e 70 milhões na URSS”. Esse mesmo pastor, que transformou sua igreja em seção eleitoral e repetidamente apresentou o então candidato de extrema direita Bolsonaro como “escolhido por Deus”.

Silas Malofe… Malafaya é amplamente considerado um dos pastores mais influentes e ricos do Brasil, liderando um império no qual se entrelaçam atividades religiosas, midiáticas e políticas. Investigações recentes e reportagens jornalísticas indicam que ele acumulou uma fortuna de milhões, com destaque para a movimentação de recursos por meio de organizações religiosas e de sua editora.

Em janeiro de 2013, a revista Forbes o nomeou o terceiro pastor mais rico do Brasil, estimando sua fortuna em 150 milhões de dólares. O fundador da igreja “Assembleia de Deus — Vitória em Cristo”, o pastor Silas Malafaya, confirmou à publicação brasileira “Metrópoles” que recebeu um investimento de 30 milhões em bitcoins do empresário Franciscela Valdevino da Silva, conhecido como “Sheikh Bitcoin”, condenado a 56 anos de prisão por organizar um esquema de pirâmide financeira com criptomoedas. Na verdade, Malofe… Malafaya não se tornou o “basileu” de Constantinopla, mas construiu um poderoso império religioso e econômico.

Na verdade, esse “imperador” sem sua “pólis” acabou no centro de uma série de escândalos judiciais, incluindo a investigação sobre lavagem de dinheiro no âmbito da operação “Timóteo” (2017) da Polícia Federal do Brasil, bem como suspeitas de obstrução da justiça, coação e tentativas de subverter os princípios do Estado de Direito (2025–2026), relacionadas ao seu apoio a Jair Bolsonaro. Ele próprio nega a culpa, alegando perseguição política.

Apesar de os pentecostais condenarem os católicos pela venda de indulgências e pela idolatria, ainda durante a pandemia da Covid-19, o conhecido pastor Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial da Força de Deus, distribuía sementes de feijão a um preço de até 1.000 reais (16.015 rublos ao câmbio atual), alegando que plantá-las traria a bênção da cura da doença. Apesar de o feijão ser muito valorizado na culinária brasileira, tudo tem um limite!

Valdeiro é conhecido não apenas por seu grande chapéu de fazendeiro; as estimativas de sua fortuna variam: segundo algumas fontes, em 2020 ela era de cerca de 20 milhões de reais, enquanto outras estimativas mais altas, às vezes citadas, indicam que esse valor é significativamente superior ao mencionado. Valdermiro possui bens de luxo, incluindo aviões e lanchas. Os juízes observam indícios de confusão entre os bens pessoais de Valdermiro e os bens da igreja, uma vez que ele continua acumulando riqueza, enquanto a situação financeira da igreja se deteriora.

Talvez a igreja mais conhecida do segmento neopentecostal na Rússia seja a Igreja Universal do Reino de Deus (doravante - IURD). Ao contrário de outras igrejas descritas neste artigo, ela está presente na Rússia, possivelmente porque, diferentemente delas, não foi fundada nos EUA, mas no Brasil, com o qual a Rússia mantém relações amigáveis por meio do BRICS.

A IURD foi fundada pelo bispo Edir Macedo (como são chamados alguns pastores dessa igreja), que repetidamente se fantasiou de rabino com barba longa e atributos israelenses. Se na Igreja Ortodoxa Russa simplesmente se sugere aos participantes do culto que façam uma doação, na IEG isso é exigido com insistência! Uma reportagem da emissora privada brasileira “Rede Globo” mostrou como, após uma partida de futebol com pastores, o pastor Edir Macedo diz que “não se pode pedir com modéstia, é preciso exigir com firmeza o dinheiro dos fiéis”. Ele conta, no vídeo, como certa vez jogou uma Bíblia no chão, antes que um fiel se recusasse a dar dinheiro: “ou você dá, ou você cai”, diz ele. “O pastor deve ser um super-herói para os fiéis”, diz outro pastor.

A IURD possui um canal de TV popular no Brasil, o “Record”, hoje um dos mais assistidos do país. O canal exibe novelas e detém os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. Não são poucos os pastores dessa igreja que não só se tornaram deputados e senadores, mas até mesmo ministros e prefeitos da cidade do Rio de Janeiro (antiga capital do Brasil), como o bispo Marcelo Crivella, grande admirador dos kibutzes israelenses. (Nota do editor: os kibutzim são comunidades agrícolas coletivas em Israel, surgidas no século XX, que inicialmente faziam parte de um projeto sionista secular e foram construídas como unidades econômicas e sociais sustentáveis, com organização, economia e integração claras no sistema estatal. Para alguns movimentos pentecostais, os kibutzim e Israel como um todo são vistos como a encarnação da realidade bíblica: o interesse por elas está ligado não tanto ao seu modelo socioeconômico, mas ao simbolismo religioso, ao apoio ao Estado de Israel e ao desejo de se aproximar da “terra das Escrituras”, o que é amplamente utilizado na pregação e na retórica ideológica.)

A IURD foi expulsa de Angola, onde milhões de seus ativos foram congelados pelo governo do presidente João Lourenço. Dezenas de pastores e bispos brasileiros foram deportados depois que pastores dissidentes angolanos assumiram o controle das igrejas, acusando a liderança brasileira de racismo, vasectomia forçada e sonegação de impostos cambiais.

O evangelismo revelou-se uma ferramenta poderosa não apenas para o enriquecimento dos pastores, mas também como capital político. Nas eleições presidenciais de 2018, o jovem pastor e cabo do Corpo de Bombeiros Daciolo obteve mais de um milhão de votos — mais do que a conhecida política e ambientalista Marina Silva e o ex-presidente do Banco Central do Brasil Henrique Meirelles. O próprio Daciolo iniciou ironicamente sua carreira política no PSOL — partido conhecido pela defesa dos direitos LGBT, proibido na Rússia e em vários outros países segundo a classificação da ONU. O bombeiro foi expulso do partido por se opor às atividades dessa organização. 

Como instrumento de manipulação e controle das massas, o movimento pentecostal também tem suas páginas sangrentas. No coração da Amazônia guianense, em 18 de novembro de 1978, 918 pessoas morreram em Jonestown — comuna fundada por Jim Jones, pastor e fundador do “Templo do Povo”, uma seita cristã pentecostal. O evento foi uma mistura de suicídio coletivo e assassinatos. Antes dos ataques de 11 de setembro, essa foi a maior tragédia causada por ações deliberadas contra cidadãos dos EUA. Embora parte das pessoas tenha sido morta por tiros e facadas, a grande maioria morreu após ingerir, por ordem do pastor, veneno misturado a um ponche de frutas.

Como o movimento “Gospel” (como também é chamado) ganhou força no Brasil? Em um país com uma cultura hipersexualizada marcante, bem descrita nas obras do escritor de esquerda Jorge Amado (ganhador do Prêmio Stalin de Literatura) e do autor de direita Nelson Rodrigues, o pentecostalismo ofereceu ao homem comum uma religião socialmente conservadora — sem “padres homossexuais”, que, segundo um seminarista católico em entrevista à BBC, são bastante comuns na Igreja Católica Romana (segundo sua estimativa, 80–90% dos seminaristas) — e, ao mesmo tempo, sem excessiva vulgaridade. No entanto, o preço desse consolo acaba sendo alto demais, como na lenda de Mefistófeles.

Publicado em 1987, o livro de Delcio Monteiro de Lima, “Os demônios descem do norte”, tornou-se leitura obrigatória para compreender a ascensão das igrejas pentecostais e seu papel nas disputas ideológicas que moldaram o Brasil e a América Latina contemporâneos.

Monteiro de Lima, cuja pena oscila entre o ensaio sociológico e a crônica política, parte de uma tese provocativa: os “demônios” do título não são criaturas do inferno, mas forças ideológicas vindas do Norte, dos Estados Unidos, sob o disfarce da fé, da moralidade e da prosperidade. Sob o pretexto da pregação, difundiu-se um modelo de poder espiritual, alinhado aos interesses econômicos e geopolíticos da Guerra Fria.

Ao investigar as numerosas seitas e denominações pentecostais surgidas do final do século XIX até meados do século XX, Monteiro de Lima mostra como a religião se tornou um instrumento de influência política. O livro traça uma linha direta entre o evangelismo clássico, de caráter missionário e moralizante, e o pentecostalismo de massa, mais emocional, midiático e estrategicamente popular.

No Brasil, o surgimento dessas correntes coincidiu com processos de urbanização acelerada, migração das áreas rurais e crises de identidade social. As igrejas ocuparam os espaços deixados pelo Estado, oferecendo não apenas salvação, mas também um sentimento de pertencimento, misericórdia e, mais tarde, representação política. Em bairros pobres sem teatros, rapidamente se espalharam as “igrejas de garagem” com mensagens sobre a “charabacamba”. Em várias cidades, o número de emissoras de rádio pentecostais já supera o número de emissoras da Igreja Católica Romana; hoje, apenas 56,7% da população brasileira permanece católica (antes, mais de 95%).

Em essência, “Os demônios descem do norte” é um ensaio sobre a instrumentalização da fé. Monteiro de Lima mostra como o pentecostalismo, afastando-se do evangelismo protestante tradicional, renuncia ao rigor teológico e aposta no espetáculo.

Entre as linhas, ouve-se uma acusação: a fé foi transformada em arma ideológica na guerra cultural, servindo frequentemente aos interesses das potências do Norte. Uma dessas potências — os Estados Unidos — conduzia um programa de “ajuda econômica”: aos europeus por meio do Plano Marshall, aos latino-americanos por meio da “Aliança para o Progresso”. Calças jeans, elásticos e até mesmo capas de chuva (inclusive para regiões quentes) eram entregues aos brasileiros pelos americanos — jogados de aviões, mas na maioria das vezes distribuídos por meio de igrejas pentecostais. Eram produtos de alta qualidade, afirmam testemunhas. A velha prática se repete: o “homem branco” conquista a lealdade dos povos da América com a ajuda de espelhos e outras ninharias.


*LGBTQIA+: organização extremista proibida no território da Federação da Rússia e em vários Estados-membros da ONU

quarta-feira, abril 01, 2026

Lei da Misoginia: como o capitalismo fabrica mães solteiras e desempregadas em nome do individualismo burguês


Recentemente, o senado do Brasil aprovou uma de suas mais novas peraltices ideológicas e legais - a chamada “Lei da Misoginia” e, com ela, plantou mais uma bomba termobárica na vida dos brasileiros. Uma das consequências mais previsíveis, e já em contagem regressiva, é o aumento brutal do número de mulheres solteiras e desempregadas nos próximos anos. A lei, a propósito, foi aprovada pelo candidato à presidência Flávio Bolsonaro, assim como por diversos nomes do PL, partido tido por alguns como "conservador", e também por nomes do PT e outros partidos do "Centrão".

Não é fácil ser da classe operária no Brasil, ser um homem comum! Além da dificuldade que muitos homens têm de encontrar-se numa vida pessoal estável, com uma companheira fiel digna de ser a mãe de seus filhos, o que ele encontra pelo caminho é um mar de narcisismo, egoísmo e consequentemente de feminismo. Um relacionamento pode sair caro para um operário, no divórcio ele pode perder um carro pelo qual trabalhou anos para poder pagar, uma casa e outros bens. E se quiser iniciar um novo relacionamento com uma mulher ainda terá que pagar 100% na hora do jantar, nada de 50%+50%, como na hora do divórcio! 

Quando uma esposa ou companheira egoísta "estoura" o cartão de um trabalhador, ou quando este é vítima de mais um estelionato emocional, nenhuma feminista, defensor de direitos humanos ou senador vai atrás dele para defender seus direitos ou criar leis que o proteja.

Com a nova "Lei da Misoginia", cujas premissas são credos político-ideológicos do feminismo radical, a partir de agora qualquer elogio, abordagem natural, cantada leve ou simples flerte poderá ser interpretado como “aversão às mulheres” e render de 2 a 5 anos de prisão, o que levará o instinto de sobrevivência a falar mais alto. E qual será o resultado? O brasileiro vai evitar se aproximar de mulheres no trabalho, na rua, na academia ou numa festa. O risco de uma denúncia subjetiva, incentivada por militantes e interpretada por juízes ativistas, é simplesmente alto demais. Namoro, casamento e relacionamentos saudáveis vão minguar. As mulheres que dependiam de interação natural com homens para formar família ou até para ter uma vida social vão pagar a conta: ficarão cada vez mais solteiras, frustradas e isoladas. Só sobrará para os homens as moças "do job", que aliás, também terão seu próprio instrumento para chantagear os clientes "incorretos".

No ambiente de trabalho a destruição reinará! Um chefe, supervisor ou mesmo colega não vai mais chamar atenção de funcionária, dar feedback corretivo, interromper erro ou oferecer conselho direto, pois isso poderá ser tido como “misoginia” ou “aversão às mulheres”. O resultado prático? Homens vão preferir contratar menos mulheres ou mantê-las em funções onde quase não haja contato direto. Mulheres ambiciosas e competentes vão encontrar portas fechadas não por “machismo”, mas por medo racional de processo e cadeia. A produtividade cai, a empresa sofre e, no fim, muitas mulheres perdem oportunidades reais de emprego e crescimento.

Essa lei não protege ninguém de violência, feminicídio já é crime hediondo. O político desonesto brasileiro acredita fielmente que a criação de leis é uma panaceia, ou ao menos ele sabe que isso pode lhe garantir votos durante as eleições. A lei da misoginia serve apenas para transformar discordância, humor, atração natural e autoridade masculina em crime de ódio. É a criminalização da masculinidade e da interação humana básica. O triunfo do sobre o comunismo também transformou-se no triunfo do egoísmo no sistema capitalista.

O Brasil caminha para uma sociedade mais fria, desconfiada e improdutiva, onde o medo substitui a liberdade. Homem vai se afastar, mulher vai sofrer as consequências e a família brasileira vai pagar o preço mais caro. Tudo em nome de uma agenda ideológica misândrica que odeia o masculino e finge proteger a mulher.

As feministas sempre argumentaram que "o feminismo nunca matou ninguém, enquanto o machismo o faz todos os dias", afirmação que nada mais é do que mera teratologia. Ora, as estatísticas mostram que a maioria dos crimes contra a mulher não são cometidos por "machistas" ou frequentadores de algum tipo de fórum com neologismos, mas sim por indivíduos com ficha criminal ou mentalmente perturbados. Mulheres não estão sendo assassinadas porque algum homem leu um fórum de pílula vermelha, elas estão sendo assassinadas porque a sociedade brasileira infelizmente é muito violenta, por que se envolvem com criminosos ou, numa outra hipótese, são vítimas do ciúme doentio de algum desequilibrado. Ressalte-se esses "seres de luz" também assassinam homens, o que é confirmado facilmente em qualquer jornal, embora de forma não tão contundente. 

No Brasil, quando o homem aprender que o custo de se aproximar de uma mulher é alto demais, ele simplesmente não vai se aproximar. E aí não vai adiantar chorar “onde estão os homens?”. "Faltam homens nesta cidade", dizem algumas mulheres. Mas a verdade é que eles estarão exatamente onde a lei os empurrou: longe.

Sobre a lei da misoginia

Feminicídio tinha que dar no mínimo prisão perpétua. MAS...


São cerca de 1,4 mil a 1,5 mil feminicídios por ano no Brasil. Temos cerca de 5,5 mil municípios. Ou seja, mesmo que cada caso ocorresse em uma cidade diferente, ainda teríamos mais de 4 mil cidades sem nenhum feminicídio por ano.

A violência contra mulher é SUPERESTIMADA?

Os feminicídios representam cerca de 3% a 4% do total de homicídios no Brasil (que giram em torno de 44 mil por ano).

Considerando cerca de 1.500 agressores em uma população de aproximadamente 105 milhões de homens, a chance individual (de um homem ser um agressor) é de aproximadamente 0,0014% por ano. Só cerca de 1 homem a cada 70.000 seria feminicida.

Outro dado interessante é que a maioria dos casos ocorre em contexto doméstico e muitos agressores já tinham histórico de violência ou passagem pela polícia(75% deles segundo dados oficiais no DF).

Sem contar que, olhando a série histórica:

Em 2015, o Brasil registrava cerca de 4.600 homicídios de mulheres, sendo aproximadamente 500 a 600 classificados como feminicídio (início da tipificação).

Em 2020, foram cerca de 3.900 homicídios de mulheres e aproximadamente 1.300 feminicídios.

Em 2022, cerca de 3.800 homicídios de mulheres e

aproximadamente 1.450 feminicídios.

Em 2024, os números giram em torno de 3.900 homicídios de mulheres e cerca de 1.450 feminicídios.

Ou seja, enquanto os homicídios totais de mulheres caíram ao longo da década (de cerca de 4.600 para algo próximo de 3.900), os casos registrados como feminicídio aumentaram (de cerca de 500–600 para cerca de 1.400–1.500), em grande parte pela consolidação da classificação e maior registro desse tipo de crime.

Importante lembrar que as mulheres não são as únicas vítimas de crimes passionais:

Metrópoles (jornal pró-feminismo), 30/03/2026: "Mulher arranca a cabeça de companheiro após matá-lo a facadas em SP"

SBT Jornalismo: "Mulher esfaqueia namorado, é presa e liberada após alegar legítima defesa"

eLimeira: "Jovem surta, esfaqueia idoso cadeirante e é morta pela polícia em Limeira"

Essas são apenas algumas notícias que ocorrem diariamente, mas não recebem a devida atenção midiática que está muito mais preocupada em promover a agenda feminista.

domingo, setembro 28, 2025

Nesta segunda-feira, exclusivamente no canal Camarada Comissário: tradução de documentário sobre o terrorista ucraniano Stepan Bandera

Tradução de documentário sobre o terrorista ucraniano Stepan Bandera

Acesso pelo link: https://youtube.com/live/fwyqYjKcygM?feature=share



Como a IA Gemini 2.5 Pro inventa falsas informações

Ultimamente o uso da IA tem sido cada vez mais comum, todavia, vários equívocos têm sido verificados não somente nesta, como também em outras IAs.

Tem sido incrivelmente difícil confiar no Gemini ultimamente. O mesmo tem se passado ao Deep Research - é feita grande coleta de recursos e citações com grandes quantidades de texto para passar uma sensação de confiança, mas quanto relatórios são investigados, mais se percebe que, apesar de toda essa pesquisa, ele regularmente inventa fatos, declarações, etc. São frequentemente apresentadas informações completamente fabricadas e mesmo obtidas de fontes duvidosas, mas a IA os apresenta como verdade espremida entre os fatos realmente pesquisados, tornando muito difícil de detectar. 

Esses equívocos também acontecem no Chat GPT. O fato é que numa época em que fala-se muito de inteligência artificial, parece que tem perdido força a inteligência natural.

Deputado bolsonarista que defende divisão da SS foi desmoralizado em debate com jornalista Breno Altman

 


sexta-feira, setembro 26, 2025

Karl Heinrich Marx x Karl Heinrich Ulrichs: a luta do marxismo contra o uranismo

 

Os fundadores do socialismo científico, Karl Heinrich Marx e F. Engels, rejeitaram as teses do uranismo (mais tarde conhecido por várias letras) de Karl Heinrich Ulrich

É comum em tempos pós-modernos que alguns movimentos que visam a legitimação ou "humanização" do capitalismo tentem ocupar praticamente todos os espaços da vida social, inclusive no terreno político-ideológico, no contexto de uma luta pelo poder, micro e macro. Neste sentido, algumas ideologias acabam sendo descaracterizadas por hordas que fazem esforços não somente para se apropriar de uma corrente filosófica, como também para subordiná-la ao que ficou chamamos de "ideologia da sodomia", na qual praticamente todas as esferas da vida social ficam subordinadas a uma ideologia antinatural, frequentemente coordenada por ONGs estrangeiras e grupos agressivamente vitimistas, numa busca não somente pelo triunfo de sua narrativa, como também pelo poder de polícia.

Karl Ulrichs é considerado o pioneiro do movimento LGBT, considerado como organização extremista em vários países membros da ONU

Embora alguns acreditem se tratar de um fenômeno exclusivamente recente, no qual certa ideologia seria um símbolo do "progresso", o fato é que em outros tempos foram testemunhados intensos embates. No século XIX dois homens duelariam em nome do triunfo de suas ideias, não com roupeiras e nem mesmo pistolas, como era comum naquele século, mas com suas canetas, atrasando assim, por séculos, a implantação de um programa misantrópico celebrado em verdadeiras procissões em São Paulo, Amsterdão, Telaviv e Nova Iorque, e positivado sob a forma de leis repressivas em países como a Alemanha e até o Brasil; tratava-se da luta ideológica entre Karl Heinrich Marx e Karl Heinrich Ulrichs, este último o avô ideológico daqueles em nosso tempo chamados de "povo do alfabeto".

Nos Manuscritos econômico-filosóficos, traduzidos para o português pela editora Martin Claret, Marx escreveu que "as únicas relações naturais são aquelas entre um homem e uma mulher". Neste sentido, ao receber exemplares das obras de Karl Ulrichs, um defensor da descriminalização do crime de pederastia do código penal alemão, os pais do socialismo científico tiveram uma reação bastante negativa. Ulrichs enviou seus escritos a uma ampla variedade de figuras influentes. Karl Marx recebeu sua obra "Mennon oder incubus". Marx e Engels sequer se deram ao trabalho de agradecer a Ulrichs por lhe enviar seu trabalho ou enviar-lhe uma crítica dele. Engels leu o livro de Ulrich e escreveu a Marx em 22 de junho de 1869:

"Que 'sodomita' (o termo em alemão original é "urning") curioso você me enviou. São revelações extremamente antinaturais. Os pederastas estão ficando muito ousados e descobriram que constituem um poder no Estado. Faltava apenas a organização, mas, segundo isso, ela já parece existir em segredo. (Original: "Das ist ja ein ganz kurioser ‚Urning', den Du mir da geschickt hast. Das sind ja äußerst widernatürliche Enthüllungen. Die Päderasten fangen an sich zu zählen und finden, daß sie eine Macht im Staate bilden. Nur die Organisation fehlte, aber hiernach scheint sie bereits im geheimen zu bestehen)..." (Obras em alemão. Vol. 32, pp. 324/5, Engels para Marx, 22 de junho de 1869)

Naquele século, os criadores do socialismo científico utilizavam cartas para sua troca cotidiana de ideias, assim como hoje usa-se smartfones, e-mail e aplicativos de mensagens, esta carta não tinha um propósito doutrinário e nem a intenção de ser publicada, todavia, ela revela claramente o que se passava na mente de Engels quando ele se deparou com doutrinas homossexuais. Enfatize-se que Engels utiliza o termo "Päderasten", utilizado no século XIX para designar um homossexual masculino, não necessariamente um homem obcecado por jovens do sexo masculino. O próximo ponto que chama a atenção é o termo "antinatural", usado ainda na Grécia Antiga por Platão. Engels também deixa implícito que já existia uma organização de sodomitas, o que o século posterior viria a confirmar. Engels também chama Ulrichs de covarde ("Infelizmente, ele ainda não tem coragem de admitir isso abertamente" ) porque ele não confessa publicamente.

Nesta carta a Marx, Engels, além disso, expressa indiferença e até simpatia pela iminente adoção do Direito Penal prussiano pela Confederação da Alemanha do Norte, que criminalizava a prática da pederastia. Sem ser contestado por Marx e Engels, o parágrafo contra a sodomia foi incorporado inicialmente ao Código Penal da Confederação da Alemanha do Norte e, em 1871, ao Código Penal Imperial. In verbis, a pederastia era legalmente definida como:

"Fornicação antinatural cometida entre pessoas do sexo masculino ou entre humanos e animais deve ser punida com prisão; a perda dos direitos civis também pode ser imposta."

Esta é a redação do Artigo 175 do Código Penal, promulgado no ano da fundação do Império. Esta redação é idêntica ao Artigo 173 do projeto de Código Penal para a Confederação da Alemanha do Norte de 1869. Seu conteúdo é baseado no Artigo 143 do Código Penal para os Estados Prussianos, adotado em 1851.

Ao final de seu desabafo quanto ao trabalho de Ulrichs, Engels pede a denúncia do homossexualismo de outros oponentes políticos. Não foi a primeira vez que Engels expressou seu descontentamento quanto a tais militantes. Já em 10 de março de 1865, Marx escreveu a Engels:

"A audácia de Herr Schweitzer (homossexual seguidor de Ferdinand Lasalle), que sabe que eu só precisei publicar suas próprias cartas, é fabulosa. Mas o que mais este maldito cão pode fazer? ... Você deve enviar algumas piadas sobre esse sujeito para Siebel (Carl Siebel, 1836 - 1868, amigo de Marx, poeta e publicista), que, por sua vez, deve divulgá-las nos diversos jornais." (Obras Vol. 31, p. 95)

Em "A origem da família, da propriedade privada e do Estado", escrito principalmente por Engels, pode-se encontrar passagens inequívocas acerca da posição que os comunistas devem ser acerca do assunto. Trata-se de uma obra fundamental sobre a qual Lenin escreveu em 1919:

"Espero que, em relação à questão do Estado, vocês se familiarizem com a obra de Engels "A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado". É uma das obras fundamentais do socialismo moderno, na qual se pode confiar em cada frase, na qual se pode ter certeza de que nenhuma frase é proferida ao acaso, que cada uma é escrita com base em uma enorme quantidade de material histórico e político." Lenin. Sobre o Estado, Obras Vol. 29, p. 425

Milhões de comunistas foram educados por esta obra. Falando sobre as origens da sodomia na Alemanha, Engels escreve:

"Esse progresso, no entanto, surgiu decisivamente do fato de que os germanos ainda viviam na família matrimonial e, na medida do possível, enxertavam a posição correspondente das mulheres na monogamia, mas de forma alguma da natureza lendária e maravilhosamente moralmente pura dos germanos, que se limita ao fato de que o casamento por matrimônio não envolve, de fato, as flagrantes contradições morais da monogamia. Pelo contrário, os germanos haviam se corrompido moralmente durante suas migrações, especialmente para o sudeste, em direção aos nômades das estepes do Mar Negro, e, além da equitação, também adotaram deles graves vícios antinaturais, como Amiano, dos taifalianos, e Procópio, dos hérulos, expressamente testemunham." (Obras Vol. 21, p. 71)

Os autores Amiano Marcelino e Procópio, em diferentes séculos, expressaram repulsa pelo fato de as tribos germânicas dos taifalianos e herulianos praticarem o chamado "vício de Sodoma". Tribos pagãs, de acordo com Amiano Marcelino, esses povos possuíam práticas sociais que, segundo o autor, eram libidinosas e obscenas, como a pederastia. Afirma Marcelino que frequentemente a pederastia destas tribos tinha um caráter de ritual antes de atos de violência praticada em campanhas militares.

Engels, é claro, também não gostava do papel dos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo na Grécia "clássica":

"Com o passar do tempo, essa família ateniense tornou-se o modelo a ser seguido não apenas pelos demais jônios, mas também, cada vez mais, por todos os gregos do interior e das colônias, que moldavam suas relações domésticas a partir dela. Mas, apesar de todo o isolamento e vigilância, as mulheres gregas frequentemente encontravam oportunidades para enganar seus maridos. Estes, que teriam vergonha de revelar qualquer amor por suas esposas, divertiam-se em todo tipo de casos amorosos com hetairas; mas a degradação das mulheres vingou-se dos homens e também os degradou, até que eles afundaram na repugnância do amor por rapazes e degradaram seus deuses, assim como a si mesmos, através do mito de Ganimedes." (Obras, Vol. 21, p. 67)

Em tempos antigos, em vez da bandeira do arcoíris, os homossexuais eram representados pelo mito de Ganímede, personagem da mitologia grega sequestrado pelo próprio Zeus em forma de águia para ser o seu "namorado"

O mito de Ganímede, conforme se sabe, diz respeito a um rapaz grego, aquário, que por sua beleza tornou-se "amante" de Zeus. Mas nem sempre, em cartas privadas, Engels mantinha o mesmo refino no vocabulário.Referindo-se, por exemplo a Wilhelm Liebknecht, Engels escreveu a Marx que este

"...Liebknecht está naturalmente furioso, já que todas as críticas foram dirigidas especificamente a ele, e ele é o pai que, junto com o come-cu Hasselmann, concebeu um programa podre..." (Marx-Engels Werke Vol. 38, pp. 30/31, Engels para FA Sorge, 11 de fevereiro de 1891) 

No original o termo usado é "arschficker" que corresponde exatamente à tradução supracitada. O termo alemão "ficker" tem a mesma raiz do termo em inglês "fucker", sendo o inglês também uma língua germânica. O programa descrito por F. Engels é o famoso Programa de Gotha. 

Justiça seja feita, é importante enfatizar que até a realização desta pesquisa não foram encontrados registros de que Hasselmann fosse de fato um sodomita, podendo o termo ter sido usado com o intuito de suscitar repulsa por aquele autor. Por esta razão algumas traduções mais "puritanas" utilizam o termo "ignóbil", "idiota" ou algum insulto menos "picante" para o termo "aschficker". Ainda que Hasselmann não o fosse, esta carta apenas reforça a ideia de que tanto K. Marx quanto F. Engels desaprovavam tal comportamento e qualquer ideia que de alguma forma o legitimasse, como é comum no século XXI nos países do Ocidente.

Apesar desta posição, Marx e Engels tinham a mais alta estima pelo socialista utópico francês Charles Fourier, ao qual Marx e especialmente Engels teceram grandes elogios, usando-se, entretanto, da famosa estratégia de "comer o peixe sem comer as espinhas". Isso deve ser tomado em conta, a considerar que a posição de Fourier a esse respeito diferia da postura dos alemães. O francês escreveu: 

"A integridade sexual aproxima os sexos. Quando nada é proibido ou suprimido, pontes são construídas entre as identidades sexuais, para os amores sáficos e pederásticos, e essa ponte para preferências sexuais menos comuns é necessária para a harmonia." 

Marx e Engels fizeram vista grossa para essa passagem. Embora alguns possam alegar que Marx e Engels eram "homens de seu tempo", o fato é que em todos os tempos, em todas as eras e séculos, a origem da vida está vinculada à ideia de união entre homem e mulher, não entre dois homens ou entre duas mulheres, mas entre sexos opostos. Essa união não apenas garante a vida, como a continuidade de povos, tribos e inteiras civilizações. 

Hoje, na União Europeia, com suas "paradas LGBTs", o feminismo e a doutrina childfree e congêneres, a população cai, a produtividade cai e a previdência já é tida como um problema certo no futuro para a geração atual. Em alguns lugares da Alemanha, terra natal de Engels e Marx, já acontece a "Grande substituição", onde o déficit de mão-de-obra leva o capitalista alemão a recorrer a grandes massas de trabalhadores ilegais do Oriente Médio e da Índia, o que pela diferença de culturas, em especial relativa à mulher, tem levado a grandes convulsões sociais. 

Homossexuais não devem ser discriminados e devem ter seus direitos respeitados, enquanto seres humanos, mas não por sua postura ideológica ou suas escolhas pessoais. Eles devem ter acesso a um sistema de saúde, tal como os demais cidadãos, mas por motivos biológicos e médicos deve ser feita uma separação entre o que é o verdadeiro "sexo" do que é um "vício", tal como se faz com o vício do cigarro ou do alcoolismo, que são permitidos a cada um, todavia são alvo de devidas campanhas educativas. Um fumante consciente, por exemplo, que respeita normais morais e a legislação, evita fumar próximo de um não fumante e principalmente num ambiente voltado para não-fumantes e em nenhum momento um estabelecimento que reitera que "É proibido fumar!" é considerado "discriminatório" ou "racista". Essa discussão deveria ser colocada em pauta, em vez de outras de menor relevância.

A práxis mais uma vez confirma a assertividade das teorias de Marx e Engels: a exaltação do urano-homossexualismo não tem absolutamente nada de "progressista" e nem é o caminho para a liberdade e o desenvolvimento social, mas sim um atestado de um experimento social planetário falho e nocivo para as gerações do presente e do futuro.


sábado, setembro 06, 2025

O DIREITO DA NAÇÃO E O RACISMO SEM MÁSCARA NA UCRÂNIA

 O DIREITO DA NAÇÃO E O RACISMO SEM MÁSCARA NA UCRÂNIA

A organização política Patriotas da Ucrânia (embrião do Batalhão/Regimento/Brigada Azov), fundada pelo já defunto Andriy Parubiy, tinha um programa abertamente neonazista. Enquanto o Partido Social-Nacional da Ucrânia disfarçava o seu neonazismo nas entrelinhas, o Patriotas da Ucrânia expunha de forma aberta um programa com ideologia racista, xenófoba, neonazista e eugenista. Anos após a sua fundação, o Patriotas da Ucrânia converter-se ia, em 2014, no Batalhão Azov, depois Regimento Azov e hoje na Brigada Azov. Inicialmente se tratava de um grupo paramilitar apoiado pelo Ministério do Interior da Ucrânia, até ser integrado às FFAA da Ucrânia. A unidade militar foi fundada por Andriy Biletskiy e Oleg Odnorojenko, seu ideólogo, ambos neonazistas confessos, tendo o primeiro sido condenado em mais de uma oportunidade por crimes comuns de direito penal como roubo. O programa político do partido do qual derivou o Azov expunha o Direito da Nação, o primeiro documento publicado pela organização, da seguinte maneira: “1. A nação, como comunidade natural, organismo espiritual e biológico mais vivo, com origem comum, tipo racial, mentalidade, língua, território de residência e cultura, tem o direito incondicional à vida e à preservação de sua identidade racial e espiritual. 2. A nação tem o direito incondicional e legal de resistir em caso de tentativas de privá-la de sua própria autossuficiência. 3. A nação tem o direito de travar uma luta defensiva e ofensiva contra as forças que procuram destruí-la ou deformá-la. 4. A nação tem direito à monoetnicidade do seu próprio Estado, bem como à total independência estatal e à ignorância das normas internacionais, caso estas ameacem a existência ou o desenvolvimento normal da nação. 5. A nação, como população genética fechada, tem o direito de se livrar, em seu território, de impurezas de outras raças, deportando seus portadores para o território histórico onde vivem. 6. A nação tem o direito de melhorar a sua própria saúde através da implementação de legislação racial, eugenista e ecológica. 7. A nação tem o direito de restaurar seu espaço espiritual, cultural e linguístico natural por meio da renacionalização de seus representantes individuais e grupos sociais e regionais da população que foram desnacionalizados como resultado da ocupação estrangeira, da integração em formações estatais multiétnicas ou da influência da cultura cosmopolita. 8. A nação tem o direito de estabelecer uma ordem socialmente justa em seu próprio Estado, bem como de se livrar das camadas parasitárias que tentam, por meio de manipulações econômicas e políticas, apropriar-se dos valores materiais da nação. 9. O Direito da Nação prevalece sobre os direitos particulares de indivíduos, famílias e grupos sociais. Os direitos destes últimos são exercidos dentro dos limites e sem prejuízo do Direito da Nação. 10. A nação tem um dever inalienável: implementar plenamente e por todos os meios disponíveis o Direito da Nação.” A Constituição da República Federativa do Brasil repudia explicitamente o racismo, razão pela qual a ideologia e os valores das Forças Armadas Ucranianas são completamente incompatíveis com os valores brasileiros. Por esta mesma razão também é desejável que os brasileiros que servem ao regime de Kiev jamais retornem ao Brasil vivos.

sexta-feira, agosto 15, 2025

De Heinz Christen a René Júnior: as lições centenárias de um escritor soviético sobre sociedades doentias

Essa semana, a sociedade brasileira foi chocada por um acontecimento trágico. Um psicopata, armado, assassinou a sangue frio um operário que fazia o seu trabalho. Naturalmente, René da Silva Nogueira Junior não se definia dessa forma, ele se apresentava nas redes sociais como um "CEO cristão, marido e patriota", e a sociedade o via como um "cidadão de bem", o "modelo de sucesso" numa sociedade extremamente materialista onde cada um é julgado segundo os bens que acumulou. A vítima do crime era um operário, pai de família, Laudemir de Souza Fernandes, gari, um lixeiro, mas a sociedade em que vivia vai um pouco mais além, era um "lixo" e por isso sua vida tinha menos valor do que o caminhão que dirigia ou a vassoura que carregava. O motivo do assassinato - o mais fútil possível, o caminhão que recolhia o lixo estava na frente do seu precioso automóvel.

Certa vez, um escritor soviético escreveu um artigo chamado "Humanismo proletário", nele o comunista Alexei Maximovich Peshkov, mais conhecido pelo pseudônimo de "Maxim Gorkiy" (que literalmente significa "Maximamente Amargo", ou talvez uma referência à famosa metralhadora Maxim, mas que dispara o amargo) discutia frases que já em seu tempo, o início do século XX, ressoavam na boca de muitos: "o mundo está doente", "o mundo enlouqueceu". Gorkiy escrevia que "humanidade", "compaixão", "generosidade" são sentimentos não aplicáveis à realidade, já que são difíceis de transformar em mercadoria pois não encontram clientes e prejudicam o crescimento dos lucros comerciais e industriais. Afinal, generosidade não rende dividendos no banco, não pode ser trocada por bitcoins e nem serve para comprar um automóvel elétrico. 

Cenas como a que o Brasil viu recentemente não são nenhuma novidade, será que alguém lembra quando o famoso jornalista Boris Casoy, antigo integrante do CCC, ridicularizou garis que lhe desejaram "Feliz Natal!" ao vivo? Num passado não muito distante, os anos 50, surgiu uma denúncia de que indígenas foram usados como alvos para a prática de tiro, tragédia que foi recapitulada pelo cineasta italiano Sergio Corbucci pela sua genial e profunda obra-prima de faroeste italiano "Django", de 1963. 

Numa sociedade em que possuir um automóvel é quase uma obrigação para alguém que se considera minimamente digno de se considerar um "ser humano", este item de consumo tem um caráter quase sacrossanto. Nas estradas de muitas cidades do Brasil, alguém que respeita o limite de velocidade é frequentemente perturbado por luzes altas ou buzina de indivíduos "apressadinhos" que consideram como um enorme insulto à sua dignidade e status social, à marca de seu automóvel, ter em sua frente um "idiota" que respeita o limite de velocidade e não lhe abre passagem, como se este fosse alguma espécie de dignatário de renome internacional. Não é raro que tais ocorridos gerem "rixas" e até resultem em assassinatos, como ocorreu em Fortaleza, onde um advogado matou a sangue frio um motorista com quem se desentendeu; no Rio, onde um motorista de uma veículo importado alemão executou um motociclista, ou em São Paulo onde um promotor atropelou vários ciclistas que estavam à frente de seu carro. 

Por que será que tais indivíduos, cuja avaliação cabe a um psiquiatra, estão tão apressados? Dizendo-se cristãos, eles estão indo a um encontro com Jesus Cristo? Talvez são profissionais apressados para desarmar uma bomba nuclear? Mesmo em países como a Alemanha, onde a pontualidade é uma relevante regra social, onde carros possuem marcas famosas no mundo inteiro e as estradas permitem ultrapassar os 200km/h, não se percebe tamanhas aberrações no trânsito.

Aliás, falando em Alemanha, Maxim Gorkiy, ainda nos anos 30, nos advertiu para um problema que aconteceu naquele país, que então tinha como símbolo de "sucesso social" não automóveis, mas a farda de organizações nazistas. Gorkiy nos conta no "Humanismo proletário" como Heinz Christen, um adolescente de 14 anos, matou seu amigo Fritz Walkenhorst, um garoto de 13 anos. O assassino contou friamente que cavou um túmulo para seu amigo com antecedência, jogou-o lá vivo e manteve-o com o rosto na areia até que Valkenhorst moresse sufocado. Ele motivou o assassinato dizendo que queria muito ficar com o uniforme de soldado de Hitler que pertencia a Valkenhorst. Isso aconteceu no início do século XX, mas no início do século XXI percebemos que pouca coisa mudou. No Brasil em vez de crianças temos dois adultos, ambos considerados pais de família, mas um deles com dignidade moral e valores em falta na sociedade, foi executado por um motivo absurdamente fútil - "ele estava na frente do carro de um príncipe do sucesso". 

Na época de Gorkiy a Alemanha nazista ainda não possuía campos de extermínio e nem havia invadido ainda praticamente toda a Europa. Havia uma sociedade que valorizava a "raça superior" e seus atributos (no caso o uniforme ou distintivo do NSDAP). No Brasil temos uma sociedade diferente, mas com muita coisa em comum, um sociedade capitalista extremamente materialista, consumista, pautada noutro tipo de racismo, não racial, mas social! Ao contrário de muitos países desenvolvidos, que costumam investir no transporte público, muitos brasileiros contraem empréstimos para comprar automóveis, gastando até o último centavo de suas poupanças, se é que tem alguma, para assim serem aceitos como "gente de bem". Costuma-se dizer que "brasileiro adora carro", quando na realidade o que ele adora é o impacto social causado por um.

Longe de querer discutir armas de fogo, um advogado que matou outro motorista em Fortaleza usou uma chave de fenda, o promotor que atropelou ciclistas em São Paulo usou seu próprio veículo como arma, o problema definitivamente não está nas armas de fogo, na região ou na cor do agressor, o problema é uma grande doença social chamada capitalismo, que enquanto existir irá fuzilar, atropelar ou estocar muitas pessoas como Laudemir de Souza Fernandes. 

A história da "doença" do capitalismo, como ensinou Gorkiy, começou quase imediatamente após a burguesia arrancar o poder das mãos dos senhores feudais desgastados. Acerca dessa doença escreveram nomes eminentes como Nietsche, Marx, Engels e outros pensadores, mas para quê estudar filosofia se isso é "mera perda de tempo que não gera dividendos na bolsa" como nos ensinam coaches infantis em podcasts? Para quê falar em generosidade, humanidade e compaixão numa sociedade que cultua o consumo e um outro "ismo" que Gorkiy criticou ainda nos anos 30?

domingo, junho 22, 2025

Nazismo é um tipo de socialismo?

Por Cristiano Alves (Kristianograd)

Símbolo da Sociedade Thule de magia negra, precursora do partido nazista


Materiais compartilhados por aplicativos de mensagens, sem qualquer crivo científico ou pesquisa aprofundada, frequentemente disseminam o mito de que comunismo e nazismo são "farinha do mesmo saco", atestando a ignorância de grupos de extrema-direita com relação a questões político-ideológicas e históricas.

O clássico argumento da direita sustenta que "se nazismo significa nacional-socialismo, logo é socialismo". Por tal raciocínio leviano pode-se concluir que o Mar Vermelho tem a cor de sangue, o Mar Negro tema cor de piche e a Companhia Negra de Geyer Flórian era formada por africanos. Curiosamente, essa idiocracia omite o fato de que "Brasil" vem de "brasa", que tem cor avermelhada, e berra que "a nossa bandeira jamais será vermelha" (embora vários toponímicos como "guará" e o próprio nome Brasil estejam mais relacionados a vermelho do que ao verde-amarelo).

No que tange ao nazismo, artigo científico de Vassiliy Saizev define o nacional-socialismo (nazismo) como 

...uma ideologia radical, antissemita, racista, anticomunista e antidemocrática. Suas raízes remontam ao Movimento Popular (Völkische Bewegung), que surgiu na década de 1880 no Império Alemão e na Áustria-Hungria. Desde 1919, após a Primeira Guerra Mundial, o Nacional-Socialismo se tornou um movimento político independente nos países de língua alemã. Assim como o fascismo, que chegou ao poder na Itália em 1922, o objetivo do Nacional-Socialismo era criar um Estado autoritário sob um único líder (autoritärer Führerstaat) – o Führer. A diferença entre a ideologia alemã e o fascismo era seu extremo antissemitismo.

A partir de 1879, antissemitas alemães organizaram vários partidos e grupos políticos de inspiração antissemítica, saudosista e ocultista, dentre as quais a "Liga do Martelo do Reich" (Reichshammerbund), a "Associação contra a Arrogância do Judaísmo" (Verband gegen die Überhebung des Judentums) ou a "Ordem Secreta dos Alemães" (der geheime Germanenorden). No ano de 1918, surgiu a "Sociedade Thule" de Munique, publicando a revista "Observador de Munique" (Münchner Beobachter) com o símbolo da suástica na capa. Em 1919, a revista foi renomeada para "Observador do Povo" (Völkischer Beobachter). A ideia de um novo Reich, o III, partia de uma ideia saudosista de resgatar a grandeza do Sacro Império Romano-Germânico (I Reich) e de dar continuidade ao Império Alemão surgido após a unificação, o II Reich. Ideias de recriação de "grandes impérios do passado" são estranhas à filosofia marxista-leninista, bem como ao pensamento das correntes socialistas utópicas do século XIX.

Ao contrário da filosofia marxista, baseada no materialismo histórico, a Sociedade Thule, precursora do Partido Nazista, buscava inspiração no misticismo, no ocultismo, na magia negra, sua base era a metafísica, o que em parte explica a obsessão de Hitler por artefatos como o Santo Graal, a Lança de Longino e outros, buscados por renomados arqueólogos nos locais mais remotos da Terra. 

Os partidários da Sociedade Thule e mais tarde do NSDAP (partido nazista) rejeitavam a ideia de "luta de classes" em prol da ideia de que a força que move a história são as sociedades secretas: os illuminati, os cátaros, a maçonaria, a seita Moon, o KKK e até os Skull&Bones seriam os verdadeiros agentes da história. A crença em antigos mitos persas, germânicos, celtas e teutônicos não possui absolutamente nenhuma relação com a filosofia marxista e mesmo com a filosofia dos chamados socialistas utópicos, mas está presente em quase todos os movimentos neonazistas dos nossos dias, sendo um exemplo clássico o neopaganismo abertamente cultuado nas fileiras das Forças Armadas da Ucrânia (ZSU) e das organizações de emigrados ucranianos no Canadá, adeptos da seita neopagã RUN Vira.

Após a Revolução de Outubro de 1917 e a subsequente guerra civil, refugiados da Rússia criaram células anticomunistas e equiparavam os comunistas aos judeus, foi nesse momento que surgiu a expressão "bolchevismo judaico". Esses refugiados eram em geral elites e oficiais reacionários que ajudaram a disseminar a teoria da conspiração de um "judaísmo mundial todo-poderoso". Criaram também a chamada "Organização da Reconstrução" (Wirtschaftliche Aufbau-Vereinigung), que apoiava ideológica e financeiramente o partido NSDAP. Todos esses grupos se fundiram em um grande movimento nacional-socialista. O antissemitismo os uniu fortemente, temperado com objetivos imperialistas e racistas.

As ideias antissemitas e racistas de Hitler não eram nenhuma novidade, tais axiomas já haviam sido deduzidos no século XIX e início do século XX, ápice do colonialismo, por teóricos raciais (por exemplo, Goubineau, Francis Galton, Ernst Haeckel, Alfred Ploetz ou Wilhelm Schallmayer). Hitler inovou ao falar em "higiene racial" como programa político. Para o famoso pintor austríaco, a preservação da raça a principal tarefa do Estado.

Isso significava a esterilização obrigatória de pessoas com defeitos genéticos e aleijados, além de diversos benefícios para as "famílias alemãs decentes". Isso levou posteriormente ao extermínio de mais de 70.000 deficientes e alemães com doenças mentais. Aqueles com a "maior pureza racial" deveriam receber um "certificado de assentamento" e se estabelecer nas colônias capturadas. Hitler enfatizou especialmente que um Estado que apoia seus melhores elementos raciais deve invariavelmente se tornar o governante da Terra, deixando claro o seu nítido viés colonial-imperialista, que em muito se inspirava nas campanhas do Império Britânico e dos Estados Unidos contra os povos "menos civilizados". Hitler, como descreveu o professor russo Yegor Yakovlyev, era um "germânico que queria ser anglossaxão".

Enquanto os escritos do líder comunista Lenin condenam abertamente o antissemitismo, como forma da classe dominante de implodir a unidade dos trabalhadores, Hitler descreve os judeus como mendigos, parasitas, micróbios, sanguessugas, fungos de fissura, ratos, etc. O "judaísmo", em todas as suas formas, buscava "decompor", "bastardizar" (Bastardisierung) e "envenenar o sangue" do povo alemão, escreveu ele. Para esse propósito, acreditava Hitler, os judeus recorriam à "prostituição", à disseminação de doenças venéreas e à sedução de meninas arianas inocentes. Hitler atribuiu os males do mundo como a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, a inflação, aos ardis do "Judaísmo Mundial". Ele incluiu nas fileiras deste último tanto o "capital financeiro" dos EUA quanto, sem ver qualquer contradição nisso, seu oponente político, o "bolchevismo".

No segundo volume de "Mein Kampf", Hitler já escrevia abertamente sobre a necessidade de exterminar os judeus: 

"Se durante a guerra 12 ou 15 mil desses judeus poluidores do povo tivessem sido submetidos a gás mostarda, assim como centenas de milhares de nossos melhores trabalhadores alemães de todas as classes e profissões que foram forçados a suportá-lo, seus milhões de vítimas não teriam sido em vão. Pelo contrário, 12 mil bandidos removidos a tempo provavelmente teriam ajudado a salvar um milhão de alemães decentes, necessários para o futuro." E essa tarefa, na opinião de Hitler, lhe foi confiada pelo próprio Deus: "Ao me livrar do judeu, estou fazendo a obra do Senhor", escreveu ele. 

Hitler não acreditava que membros de famílias judias também servissem na frente de batalha e, portanto, estivessem sujeitos a ataques com gás. Seu amigo e mentor, Dietrich Eckart, acreditava tão firmemente nessa ideia, inventada pelos próprios nazistas, que declarou que pagaria mil marcos a qualquer pessoa que conseguisse o nome de uma família judia cujos filhos tivessem servido no front por mais de três semanas. Quando o rabino Samuel Freund nomeou vinte dessas famílias, Dietrich se recusou a pagar. O rabino entrou com uma ação judicial, na qual nomeou outras cinquenta famílias. Nas famílias nomeadas, até sete filhos serviram, dos quais até três morreram em batalha. Eckart perdeu o caso e foi forçado a pagar o valor.

O sociólogo alemão Max Horkheimer escreveu em 1939 que o fascismo é equivalente ao capitalismo. O historiador Manfred Weissbecker chamou o nome do partido NSDAP de pura demagogia, já que não era nacionalista nem socialista, mas puramente fascista. É importante enfatizar que o programa econômico do III Reich não foi elaborado por Adolf Hitler, mas sim por Albert Speer, que liderava uma organização de grandes empresários alemães. 

O historiador e economista britânico Antony C. Sutton acredita que o Partido Nazista era apoiado por bancos americanos. O economista ítalo-americano Guido Giacomo Preparata compartilha dessa opinião. O partido, que não tinha dinheiro nem mesmo para um congresso no verão de 1928 e depois perdeu as eleições, reuniu cerca de 200 mil membros em trens especialmente encomendados de toda a Alemanha no verão de 1929 e os levou até Nuremberg.

De fato, no partido havia uma facção socialista liderada por Gregor Strasser até 1930, mas ele e seus camaradas deixaram o partido e mesmo foram reprimidos no regime hitlerista. A ideologia do partido continha alguns elementos de anticapitalismo, mas sempre subordinadas ao viés antissemita. 

O cientista político Franz Neumann escreveu que o nacional-socialismo não se libertou da produção capitalista privada, mas, pelo contrário, criou o “capitalismo monopolista totalitário”. O próprio Hitler se manifestou a favor da propriedade privada já em 1919, em conversas privadas, e em 1926, publicamente, durante um discurso no Clube Nacional de Hamburgo. Em 26 de junho de 1944, em um discurso diante de figuras importantes da indústria militar, Albert Speer e Adolf Hitler prometeram que "após a vitória, uma grande era viria para a iniciativa privada na indústria alemã". Apesar disso, Hitler não era um adepto do livre mercado, embora não defendesse uma ditadura do proletariado, ainda que alemão. Sua ideologia também não era a favor da nacionalização da produção. A Alemanha de Hitler pode ser vista como uma Alemanha na qual o poder dos grandes bancos foi repassado para a indústria armamentista.

O programa do NSDAP pôs em prática alguns princípios assistencialistas, mas ao contrário do marxismo, que promete igualdade social aos trabalhadores, esse programa estava subordinado ao princípio de homogeneidade étnica. Houve tentativas de colocar essa promessa em prática, mas somente no Serviço de Trabalho do Reich (Reichsarbeitsdienst), na Juventude Hitlerista e no exército (Wehrmacht). 

Esses fatos, atestados até mesmo pelos trabalhos mais medíocres sobre o III Reich, refutam completamente o mito de que "socialismo e nazismo são irmãos gêmeos", mitos estes que levam o povo à ignorância e à manipulação dos defensores da mais cruel forma de capitalismo

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