Ivan, um jovem russo, voou para o Rio de Janeiro e conheceu a simpática brasileira Sara em um aplicativo de namoro; a latina mal podia esperar para convidá-lo para um encontro naquela mesma noite e até prometeu a ele algo que ele nem “poderia imaginar”! A autoestima de Ivan disparou na esperança de uma “noite de carnaval” com a garota; no entanto, ela o levou a um lugar estranho – uma garagem onde acontecia algo parecido com um ritual religioso: um homem de terno gritava alto, as pessoas caíam no chão e diziam palavras estranhas e incompreensíveis para todos. Ivan não sabia que a garota o havia astutamente atraído para um templo neopentecostal.
A jovem brasileira Adriana conheceu o argentino José. Alto e atlético, o rapaz falava alto e se comunicava razoavelmente bem em seu idioma, o português, o que a surpreendeu, já que ela mesma falava péssimo espanhol. Após uma longa caminhada e um lanche de alfajores (nota do editor. esp. Alfajores — sobremesa popular na América do Sul, composta por dois biscoitos redondos de massa quebradiça unidos por recheio de leite condensado), o homem começou a contar como gostava de uma música sobre o político de extrema direita Bolsonaro, por sinal, uma música extremamente medíocre! O homem contou à moça que considera Milei o melhor presidente da Argentina, que gosta de Trump e até mesmo de Netanyahu. Esse homem se descreveu como “evangélico”, como costumam se apresentar os neopentecostais. Mas quem são essas pessoas? O que une a brasileira Adriana e o russo Ivan?
“Sem dúvida, os evangélicos (ou seja, os neopentecostais) se tornaram uma força política decisiva”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e professor dos programas de mestrado e doutorado na área de “População, Território e Estatística Pública” da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Brasil. Nas eleições de 2018, Jair Bolsonaro (então com 62 anos) foi eleito presidente do Brasil, governando o país até 2022. Embora afirme ser católico, em 12 de maio de 2016 Bolsonaro foi “batizado” nas águas do Jordão (onde, segundo a Bíblia, Jesus foi batizado). A cerimônia de batismo (teologicamente falando, na realidade um banho) foi conduzida pelo pastor Everaldo, presidente do Partido Social Cristão. Sem dúvida, as raízes pentecostais da família remontam à ex-primeira-dama, Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro (na época com 38 anos) — terceira esposa de Bolsonaro —, que frequenta regularmente igrejas desse tipo acompanhada pelo marido.
O neopentecostalismo é um fenômeno religioso estranho para a maioria dos russos, sobre o qual nem mesmo politólogos experientes e teólogos ortodoxos têm conhecimento. Ele surgiu na década de 1970 e se espalhou rapidamente, sobretudo nos países da América Latina. Em sua base está a chamada “teologia da prosperidade”, com ênfase na “guerra espiritual” contra os demônios e um afastamento notável das normas cristãs tradicionais e das concepções de moralidade. Práticas características — “falar em línguas”, promessas de curas milagrosas, rituais de expulsão de demônios e exorcismo — são apresentadas não apenas como manifestações de fé, mas também como um poderoso instrumento de influência sobre as pessoas.
Ao contrário da Igreja Católica Romana tradicional no Brasil, onde a Teologia da Libertação exerceu influência notável, com ênfase na justiça social e na ajuda aos pobres, a “teologia da prosperidade” propõe uma abordagem diretamente oposta. Aqui, afirma-se que a fé, reforçada por contribuições financeiras (dízimos e doações), supostamente garante ao indivíduo bem-estar material, saúde e sucesso na vida.
É fácil reconhecer uma igreja neopentecostal no Brasil e em outros países da América Latina. Geralmente é barulhenta, e seus fiéis gritam alto durante o “culto” (como chamam sua cerimônia religiosa). Às vezes, essas seitas e igrejas organizam caravanas com caminhões e aparelhos de som, nas quais, mesmo nos finais de semana, tarde da noite, os pastores pregam perto de bairros residenciais, o que muitas vezes irrita os moradores locais. O autor do artigo observou pessoalmente um pregador falando em voz alta no centro de São Paulo (Brasil) — em… espanhol. Aparentemente, não lhe explicaram que ele estava na cidade de São Paulo, e não em Santiago.
Foi justamente na cidade de São Paulo, na avenida mais famosa da cidade — a Avenida Paulista —, em 2024, que um grupo de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro se manifestou contra a prisão desse político, vestindo camisetas da seleção brasileira de futebol e bandeiras de Israel. Quando o conhecido blogueiro Fernando Tiete perguntou a uma mulher por que ela tinha uma bandeira de Israel no braço, a mulher respondeu furiosamente que «Israel é um país cristão» e que «Israel nos representa, pois não somos socialistas nem comunistas, por isso Israel está conosco».
Em várias cidades do Brasil, seja antes ou depois da chamada "grande parada gay"*, acontece a “Marcha por Jesus”, frequentemente sob a bandeira do Estado de Israel. O conhecido jornalista e ativista dos direitos humanos Breno Altman, judeu brasileiro, condenou a aliança entre pentecostais e sionistas no Brasil.
O neopentecostalismo é um fenômeno religioso estranho para a maioria dos russos, sobre o qual nem mesmo politólogos experientes e teólogos ortodoxos têm conhecimento. Ele surgiu na década de 1970 e se espalhou rapidamente, sobretudo nos países da América Latina. Em sua base está a chamada “teologia da prosperidade”, com ênfase na “guerra espiritual” contra os demônios e um afastamento notável das normas cristãs tradicionais e das concepções de moralidade. Práticas características — “falar em línguas”, promessas de curas milagrosas, rituais de expulsão de espíritos e exorcismo — são apresentadas não apenas como manifestações de fé, mas também como um poderoso instrumento de influência sobre as pessoas.
Ao contrário da Igreja Católica Romana tradicional no Brasil, onde a Teologia da Libertação exerceu influência notável, com ênfase na justiça social e na ajuda aos pobres, a “teologia da prosperidade” propõe uma abordagem diretamente oposta. Aqui, afirma-se que a fé, reforçada por contribuições financeiras (dízimos e doações), supostamente garante ao indivíduo bem-estar material, saúde e sucesso na vida.
É fácil reconhecer uma igreja neopentecostal no Brasil e em outros países da América Latina. Geralmente é barulhenta, e seus fiéis gritam alto durante o “culto” (como chamam sua cerimônia religiosa). Às vezes, essas seitas e igrejas organizam caravanas com caminhões e aparelhos de som, nas quais, mesmo nos finais de semana, tarde da noite, os pastores pregam perto de bairros residenciais, o que muitas vezes irrita os moradores locais. O autor do artigo observou pessoalmente um pregador falando em voz alta no centro de São Paulo (Brasil) — em… espanhol. Aparentemente, não lhe explicaram que ele estava na cidade de São Paulo, e não em Santiago.
Foi justamente na cidade de São Paulo, na avenida mais famosa da cidade — a Avenida Paulista —, em 2024, que um grupo de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro se manifestou contra a prisão desse político, vestindo camisetas da seleção brasileira de futebol e bandeiras de Israel. Quando o conhecido blogueiro Fernando Tiete perguntou a uma mulher por que ela tinha uma bandeira de Israel no braço, a mulher respondeu furiosamente que «Israel é um país cristão» e que «Israel nos representa, pois não somos socialistas nem comunistas, por isso Israel está conosco».
Em várias cidades do Brasil, seja antes ou depois da parada gay*, acontece a “Marcha por Jesus”, frequentemente sob a bandeira do Estado de Israel. O conhecido jornalista e ativista dos Direitos Humanos Breno Altman, judeu brasileiro, condenou a aliança entre pentecostais e sionistas no Brasil.
Mas como essa aliança se formou? As práticas religiosas ligadas a Israel entre os neopentecostais brasileiros não surgiram por si só e certamente não são uma continuação “natural” da tradição cristã. Tudo começou com a importação de ideias do Norte — dos EUA; no século passado, o Brasil tornou-se um dos principais campos de expansão do evangelismo americano. Junto com os missionários, as pregações na TV e a literatura religiosa, chegou ao país a já consolidada concepção evangélica do “sionismo cristão” — a ideia de que Israel ocupa um lugar central no plano divino e que apoiá-lo é uma espécie de dever religioso. Histórias sobre a terra, a vitória, a riqueza e o caráter de povo escolhido foram facilmente traduzidas para o contexto contemporâneo: Deus ajudou Israel — logo, ajudará você também. Assim começou a gradual adoção de símbolos e imagens associados ao antigo Israel.
Com o tempo, isso ultrapassou os limites dos sermões e tornou-se parte da prática ritual: nas igrejas surgem estrelas de Davi, utilizam-se shofares, realizam-se “campanhas de Israel” e reproduzem-se cenas do Antigo Testamento. A teologia da prosperidade, que está na base do neopentecostalismo, também desempenha um papel importante. Nesse contexto, Israel é interpretado como uma prova tangível de que Deus realmente “abençoa” seus eleitos. O apoio a Israel começa a ser apresentado como uma forma de entrar nessa lógica de bênção: se você está do lado certo, sua vida também será bem-sucedida.
Essa aliança favorece Israel — o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu citou abertamente os evangélicos de um dos principais aliados do país. E isso não é cortesia diplomática, mas o reconhecimento mais genuíno de um recurso político que realmente existe. Um dos exemplos mais evidentes são as mobilizações em massa em apoio a Israel, e aqui já não se trata de gestos simbólicos, mas de dezenas de milhares de pessoas levadas às ruas. Em Manaus, ocorreu uma manifestação com cerca de 40 mil participantes, organizada pelo líder religioso René Terra Nova, onde os participantes “oraram por Israel e expressaram apoio ao Estado judeu” na luta contra a Palestina.
Os fiéis pentecostais são um povo peculiar. Apesar do clima da Brasil, costumam se vestir com roupas quentes; as moças podem usar tranquilamente saias jeans longas, já que não lhes é permitido usar calças. As moças, via de regra, têm cabelos muito longos, o que se baseia na interpretação literal de 1 Coríntios 11:14-15, onde cabelos longos são associados à honra, à modéstia e às diferenças de gênero. Isso é visto como um sinal de submissão a Deus e de separação do mundo. Os seguidores desse movimento também costumam evitar clubes noturnos, carnavais e até mesmo as tradicionais festas de junho.
E, no entanto, não é raro que os pregadores de algumas denominações sejam ex-viciados em drogas, criminosos ou acompanhantes (algumas denominações aceitam mulheres como pastoras). Apesar de os pastores frequentemente condenarem em voz alta o homossexualismo nas “seitas”, não são raros os escândalos relacionados a adultério entre os fiéis e até mesmo entre os pastores. Os pregadores dessas seitas costumam usar trajes formais mesmo a +40 °C e muitas vezes almejam uma carreira política. No Brasil, chegou-se a formar uma verdadeira “bancada evangélica” no parlamento nacional.
Em suas “batalhas religiosas”, os pentecostais costumavam condenar duramente os católicos como “idólatras” e “adoradores de Maria”. Eles se opõem ao uso do crucifixo: “Meu Deus não foi criado para ficar pendurado no pescoço de homossexuais”, disse o famoso pastor e deputado Marcus Feliciano. O episódio mais preocupante foi quando o “bispo” da Igreja Mundial do Reino de Deus chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida (a aparição de Maria negra no Brasil ocorreu muitos anos antes do surgimento da Netflix e essa imagem é a principal representação da Virgem Maria no catolicismo brasileiro) ao vivo, chamando-a de “boneco desgraçado”.
Após as notícias sobre esse episódio, ocorreram por um breve período confrontos entre fiéis nas ruas do Brasil. Os adeptos das religiões neopagãs do Brasil frequentemente reclamam que os pentecostais destroem seus templos e os acusam de praticar magia negra. Católicos e outros cristãos costumam dizer que os pentecostais falam mais sobre demônios do que sobre o próprio Deus, pois, por meio do medo, é mais fácil arrecadar o dízimo e as doações dos fiéis.
Os “cultos” das seitas neopentecostais não têm nada a ver nem com o catolicismo, nem com a ortodoxia, nem com o protestantismo tradicional (luteranismo ou anglicanismo). Em geral, eles se baseiam em espetáculos criados nos EUA para a televisão. Algumas dessas cerimônias chegaram até a se tornar memes na internet, como a do “Pastor Ryu”, que, tal como um lutador do videogame “Street Fighter”, levanta o braço e derruba uma multidão inteira de homens fisicamente saudáveis. Mas talvez o “clássico” desse gênero seja o famoso “Pastor Metralhadora” — um trecho do culto pentecostal em que o pastor supostamente “atira” nos fiéis com a glória de Deus. O pastor não apenas imita o som de uma metralhadora com a boca, mas também o som de “resfriamento” da metralhadora, enquanto os fiéis pulam de alegria como em um show de rock. O vídeo no YouTube recebeu mais de um milhão de visualizações. Nos comentários, as pessoas veem isso como uma brincadeira, mas escrevem que seus parentes religiosos levaram o “Pastor Metralhadora” a sério. Nos “cultos” pentecostais, frequentemente ocorrem rituais de expulsão de demônios, geralmente envolvendo pessoas comuns (por alguma razão, entre os possuídos não há pessoas ricas ou milionárias).
Sem sua própria Roma ou Meca, os pentecostais frequentemente veem os EUA como o “país mais protestante”. Os fiéis acreditam que os EUA são um país poderoso e influente porque seguem os ensinamentos do pentecostalismo e do protestantismo, em prol do “cristianismo correto”. Os fiéis desse movimento costumam se apresentar simplesmente como “cristãos” ou apenas “protestantes”. Na ausência de uma língua canônica, como o eslavônico eclesiástico na Igreja Ortodoxa Russa ou o latim na Igreja Católica Romana, os pregadores pentecostais frequentemente “inventam línguas” no estilo “sharabacamba pipá”, nas suas palavras – “a língua dos anjos”. Isso, no entanto, não invalida o fato de que muitos pentecostais se dedicam ao estudo de línguas estrangeiras, considerando-as um instrumento poderoso e útil para a evangelização — da mesma forma que a ioga serve como instrumento de difusão da religião hinduísta.
No que diz respeito à fé, os pentecostais e neopentecostais, ao contrário das vertentes tradicionais do cristianismo (incluindo o luteranismo), rejeitam categoricamente os santos, assim como o sacramento do batismo. Às vezes, fiéis abastados recorrem a ritos simbólicos, como o banho: assim, Jair Bolsonaro, antes das eleições, realizou um banho no rio Jordão na presença do pastor Everaldo, líder do Partido Social-Cristão. Maria não é considerada a Mãe de Deus. Ao contrário da Igreja Ortodoxa Russa, na qual padres e monges devem obrigatoriamente estudar em seminários, no pentecostalismo não existem instituições de ensino desse tipo. Alguns pastores nem sequer possuem formação teológica e, muitas vezes, são semi-analfabetos.
Mas tudo isso são características externas dessa religião; qual é, então, o seu papel na vida política, social e econômica da população dos países da América Latina? O pentecostalismo e o neopentecostalismo representam o segmento religioso que mais cresce no Brasil, liderando em termos de ritmo de crescimento do número de instituições religiosas no país. De acordo com dados do Censo de 2022 (publicados em 2025), o número de evangélicos no Brasil atingiu 26,9% da população, o que representa um crescimento significativo em comparação com os 21,7% registrados em 2010. Isso significa mais pessoas do lado do Estado de Israel (e, na verdade, contra o Irã), assim como mais apoiadores da extrema direita e do liberalismo econômico, como o argentino “José”, citado no início deste artigo. Esse segmento frequentemente desempenha um papel importante, não somente como “trolls pró-Israel” nas redes sociais, mas também como “bots” para defender políticos da extrema direita e para a propaganda ativa do anticomunismo.
O conhecido pastor, blogueiro e líder da Assembleia de Deus Silas Malafaya (não confundir com Malofeev) é um anticomunista ferrenho, que afirmou repetidamente que «os verdadeiros cristãos não votam em comunistas», pois, segundo ele, “os comunistas mataram 1 milhão no Vietnã e 70 milhões na URSS”. Esse mesmo pastor, que transformou sua igreja em seção eleitoral e repetidamente apresentou o então candidato de extrema direita Bolsonaro como “escolhido por Deus”.
Silas Malofe… Malafaya é amplamente considerado um dos pastores mais influentes e ricos do Brasil, liderando um império no qual se entrelaçam atividades religiosas, midiáticas e políticas. Investigações recentes e reportagens jornalísticas indicam que ele acumulou uma fortuna de milhões, com destaque para a movimentação de recursos por meio de organizações religiosas e de sua editora.
Em janeiro de 2013, a revista Forbes o nomeou o terceiro pastor mais rico do Brasil, estimando sua fortuna em 150 milhões de dólares. O fundador da igreja “Assembleia de Deus — Vitória em Cristo”, o pastor Silas Malafaya, confirmou à publicação brasileira “Metrópoles” que recebeu um investimento de 30 milhões em bitcoins do empresário Franciscela Valdevino da Silva, conhecido como “Sheikh Bitcoin”, condenado a 56 anos de prisão por organizar um esquema de pirâmide financeira com criptomoedas. Na verdade, Malofe… Malafaya não se tornou o “basileu” de Constantinopla, mas construiu um poderoso império religioso e econômico.
Na verdade, esse “imperador” sem sua “pólis” acabou no centro de uma série de escândalos judiciais, incluindo a investigação sobre lavagem de dinheiro no âmbito da operação “Timóteo” (2017) da Polícia Federal do Brasil, bem como suspeitas de obstrução da justiça, coação e tentativas de subverter os princípios do Estado de Direito (2025–2026), relacionadas ao seu apoio a Jair Bolsonaro. Ele próprio nega a culpa, alegando perseguição política.
Apesar de os pentecostais condenarem os católicos pela venda de indulgências e pela idolatria, ainda durante a pandemia da Covid-19, o conhecido pastor Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial da Força de Deus, distribuía sementes de feijão a um preço de até 1.000 reais (16.015 rublos ao câmbio atual), alegando que plantá-las traria a bênção da cura da doença. Apesar de o feijão ser muito valorizado na culinária brasileira, tudo tem um limite!
Valdeiro é conhecido não apenas por seu grande chapéu de fazendeiro; as estimativas de sua fortuna variam: segundo algumas fontes, em 2020 ela era de cerca de 20 milhões de reais, enquanto outras estimativas mais altas, às vezes citadas, indicam que esse valor é significativamente superior ao mencionado. Valdermiro possui bens de luxo, incluindo aviões e lanchas. Os juízes observam indícios de confusão entre os bens pessoais de Valdermiro e os bens da igreja, uma vez que ele continua acumulando riqueza, enquanto a situação financeira da igreja se deteriora.
Talvez a igreja mais conhecida do segmento neopentecostal na Rússia seja a Igreja Universal do Reino de Deus (doravante - IURD). Ao contrário de outras igrejas descritas neste artigo, ela está presente na Rússia, possivelmente porque, diferentemente delas, não foi fundada nos EUA, mas no Brasil, com o qual a Rússia mantém relações amigáveis por meio do BRICS.
A IURD foi fundada pelo bispo Edir Macedo (como são chamados alguns pastores dessa igreja), que repetidamente se fantasiou de rabino com barba longa e atributos israelenses. Se na Igreja Ortodoxa Russa simplesmente se sugere aos participantes do culto que façam uma doação, na IEG isso é exigido com insistência! Uma reportagem da emissora privada brasileira “Rede Globo” mostrou como, após uma partida de futebol com pastores, o pastor Edir Macedo diz que “não se pode pedir com modéstia, é preciso exigir com firmeza o dinheiro dos fiéis”. Ele conta, no vídeo, como certa vez jogou uma Bíblia no chão, antes que um fiel se recusasse a dar dinheiro: “ou você dá, ou você cai”, diz ele. “O pastor deve ser um super-herói para os fiéis”, diz outro pastor.
A IURD possui um canal de TV popular no Brasil, o “Record”, hoje um dos mais assistidos do país. O canal exibe novelas e detém os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. Não são poucos os pastores dessa igreja que não só se tornaram deputados e senadores, mas até mesmo ministros e prefeitos da cidade do Rio de Janeiro (antiga capital do Brasil), como o bispo Marcelo Crivella, grande admirador dos kibutzes israelenses. (Nota do editor: os kibutzim são comunidades agrícolas coletivas em Israel, surgidas no século XX, que inicialmente faziam parte de um projeto sionista secular e foram construídas como unidades econômicas e sociais sustentáveis, com organização, economia e integração claras no sistema estatal. Para alguns movimentos pentecostais, os kibutzim e Israel como um todo são vistos como a encarnação da realidade bíblica: o interesse por elas está ligado não tanto ao seu modelo socioeconômico, mas ao simbolismo religioso, ao apoio ao Estado de Israel e ao desejo de se aproximar da “terra das Escrituras”, o que é amplamente utilizado na pregação e na retórica ideológica.)
A IURD foi expulsa de Angola, onde milhões de seus ativos foram congelados pelo governo do presidente João Lourenço. Dezenas de pastores e bispos brasileiros foram deportados depois que pastores dissidentes angolanos assumiram o controle das igrejas, acusando a liderança brasileira de racismo, vasectomia forçada e sonegação de impostos cambiais.
O evangelismo revelou-se uma ferramenta poderosa não apenas para o enriquecimento dos pastores, mas também como capital político. Nas eleições presidenciais de 2018, o jovem pastor e cabo do Corpo de Bombeiros Daciolo obteve mais de um milhão de votos — mais do que a conhecida política e ambientalista Marina Silva e o ex-presidente do Banco Central do Brasil Henrique Meirelles. O próprio Daciolo iniciou ironicamente sua carreira política no PSOL — partido conhecido pela defesa dos direitos LGBT, proibido na Rússia e em vários outros países segundo a classificação da ONU. O bombeiro foi expulso do partido por se opor às atividades dessa organização.
Como instrumento de manipulação e controle das massas, o movimento pentecostal também tem suas páginas sangrentas. No coração da Amazônia guianense, em 18 de novembro de 1978, 918 pessoas morreram em Jonestown — comuna fundada por Jim Jones, pastor e fundador do “Templo do Povo”, uma seita cristã pentecostal. O evento foi uma mistura de suicídio coletivo e assassinatos. Antes dos ataques de 11 de setembro, essa foi a maior tragédia causada por ações deliberadas contra cidadãos dos EUA. Embora parte das pessoas tenha sido morta por tiros e facadas, a grande maioria morreu após ingerir, por ordem do pastor, veneno misturado a um ponche de frutas.
Como o movimento “Gospel” (como também é chamado) ganhou força no Brasil? Em um país com uma cultura hipersexualizada marcante, bem descrita nas obras do escritor de esquerda Jorge Amado (ganhador do Prêmio Stalin de Literatura) e do autor de direita Nelson Rodrigues, o pentecostalismo ofereceu ao homem comum uma religião socialmente conservadora — sem “padres homossexuais”, que, segundo um seminarista católico em entrevista à BBC, são bastante comuns na Igreja Católica Romana (segundo sua estimativa, 80–90% dos seminaristas) — e, ao mesmo tempo, sem excessiva vulgaridade. No entanto, o preço desse consolo acaba sendo alto demais, como na lenda de Mefistófeles.
Publicado em 1987, o livro de Delcio Monteiro de Lima, “Os demônios descem do norte”, tornou-se leitura obrigatória para compreender a ascensão das igrejas pentecostais e seu papel nas disputas ideológicas que moldaram o Brasil e a América Latina contemporâneos.
Monteiro de Lima, cuja pena oscila entre o ensaio sociológico e a crônica política, parte de uma tese provocativa: os “demônios” do título não são criaturas do inferno, mas forças ideológicas vindas do Norte, dos Estados Unidos, sob o disfarce da fé, da moralidade e da prosperidade. Sob o pretexto da pregação, difundiu-se um modelo de poder espiritual, alinhado aos interesses econômicos e geopolíticos da Guerra Fria.
Ao investigar as numerosas seitas e denominações pentecostais surgidas do final do século XIX até meados do século XX, Monteiro de Lima mostra como a religião se tornou um instrumento de influência política. O livro traça uma linha direta entre o evangelismo clássico, de caráter missionário e moralizante, e o pentecostalismo de massa, mais emocional, midiático e estrategicamente popular.
No Brasil, o surgimento dessas correntes coincidiu com processos de urbanização acelerada, migração das áreas rurais e crises de identidade social. As igrejas ocuparam os espaços deixados pelo Estado, oferecendo não apenas salvação, mas também um sentimento de pertencimento, misericórdia e, mais tarde, representação política. Em bairros pobres sem teatros, rapidamente se espalharam as “igrejas de garagem” com mensagens sobre a “charabacamba”. Em várias cidades, o número de emissoras de rádio pentecostais já supera o número de emissoras da Igreja Católica Romana; hoje, apenas 56,7% da população brasileira permanece católica (antes, mais de 95%).
Em essência, “Os demônios descem do norte” é um ensaio sobre a instrumentalização da fé. Monteiro de Lima mostra como o pentecostalismo, afastando-se do evangelismo protestante tradicional, renuncia ao rigor teológico e aposta no espetáculo.
Entre as linhas, ouve-se uma acusação: a fé foi transformada em arma ideológica na guerra cultural, servindo frequentemente aos interesses das potências do Norte. Uma dessas potências — os Estados Unidos — conduzia um programa de “ajuda econômica”: aos europeus por meio do Plano Marshall, aos latino-americanos por meio da “Aliança para o Progresso”. Calças jeans, elásticos e até mesmo capas de chuva (inclusive para regiões quentes) eram entregues aos brasileiros pelos americanos — jogados de aviões, mas na maioria das vezes distribuídos por meio de igrejas pentecostais. Eram produtos de alta qualidade, afirmam testemunhas. A velha prática se repete: o “homem branco” conquista a lealdade dos povos da América com a ajuda de espelhos e outras ninharias.
*LGBTQIA+: organização extremista proibida no território da Federação da Rússia e em vários Estados-membros da ONU
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